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Calor do coração carioca


Calor do coração carioca Gabriel Novis Neves

Para quem vinha de Cuiabá, o calor não era novidade.


Ainda assim, o clima do Rio de Janeiro tinha suas próprias exigências.


Havia dias em que o sol parecia pesar sobre a cidade inteira, como um manto luminoso e insistente.


Caminhar entre uma aula e outra pedia paciência e disposição.


Muitas vezes eu chegava à sala já vencido pelo calor carioca.


Mas a juventude, generosa, logo restaurava as forças, e voltávamos atentos às explicações dos professores.


Durante os anos em que estudei no Rio, nunca tive ar-condicionado no quarto da pensão.


Resolvi com um pequeno ventilador e o hábito de estudar sem camisa.


O verão carioca, em muitos momentos, me lembrava Cuiabá.


A diferença estava na forma de enfrentá-lo


Era curioso observar o comportamento dos cariocas diante do sol intenso.


Em vez de fugir dele, buscavam-no.


Iam às praias, e permaneciam deitados por horas, entregues ao bronzeado —alguns sequer molhavam os pés.


Diziam, com certo humor, que a pele dourada realçava a beleza e disfarçava imperfeições.


No Rio não era difícil reconhecer quem vinha do interior — pela cor da pele, pelo jeito de falar.


Lembro-me de que quando fui à agência central do Banco do Brasil retirar a mesada enviada por meu pai.


O gerente, ao examinar minha identidade, perguntou seu eu viera prestar vestibular.


Respondi que sim.


Ele sorriu e disse que já imaginava, pela minha pele ainda clara, sobretudo sendo de Cuiabá.


Com o tempo, aprendi que o calor não é apenas uma questão de temperatura, mas também de costume.


Cuiabá é uma das cidades mais quentes do Brasil, e, ainda assim, quem nasce ali aprende a conviver com o sol — até a ponto de jogar futebol nas tardes ardentes.


Hoje a tecnologia nos oferece conforto: ar-condicionado em escolas, lojas, igrejas, casas e apartamentos.


No meu, instalei aparelhos em todos os cômodos.


Já não tenho qualquer desejo de enfrentar o sol das praias ou piscinas.


O tempo muda também nossas preferências.


Na cobertura onde moro, retirei a piscina para ampliar o jardim.


No lugar da água, cultivei rosas do deserto, resistentes e silenciosas, que florescem sob o mesmo sol que um dia me acompanhou no Rio.


No fim, percebi que não foi o calor que mudou — fui eu.


Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado


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