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Do Hakko Ichiu à Venezuela: O Retorno das Doutrinas de Espaço Vital


Do Hakko Ichiu à Venezuela: O Retorno das Doutrinas de Espaço Vital Ricardo Carvalho

 A história raramente se repete da mesma forma, mas mas toma contornos cíclicos com precisão inquietante. As doutrinas que empurraram o mundo para a Segunda Guerra Mundial, o Hakko Ichiu japonês e o Lebensraum alemão,  não desapareceram em 1945.

Foram apenas silenciadas pelo trauma sofrido globalmente. Hoje, elas retornam sob nova linguagem, novos atores e uma retórica muito mais sofisticada, porém com a mesma essência: a legitimação da expansão como necessidade histórica.

O Arquétipo do Espaço Vital

Hakko Ichiu e Lebensraum partiam de premissas diferentes, mas convergiam no mesmo ponto:

O mundo é finito e os recursos são escassos, e daí decorrente o direito natural, as vezes divino, que algumas nações possuem para expandir-se.

No Japão imperial, a expansão era uma missão espiritual: unificar os povos asiáticos sob a tutela do Imperador. Na Alemanha nazista, era uma necessidade biológica e econômica: garantir território, alimentos e recursos para a sobrevivência do Reich. Em ambos os casos, a soberania alheia tornava-se um detalhe secundário.

O que muda no século XXI não é a lógica, é o vocabulário.

Ucrânia: O Precedente que Quebrou o Tabu

A invasão da Ucrânia pela Rússia, sob Vladimir Putin, marca o momento em que o tabu pós-1945 começa a ruir. Ao agir militarmente para redefinir fronteiras e justificar a ação com argumentos históricos, identitários e estratégicos, Moscou reintroduz o conceito de espaço vital na prática internacional.

A resposta ocidental,  sanções severas, mas ausência de confronto direto, enviou uma mensagem inequívoca ao sistema internacional:

é possível redesenhar fronteiras pela força e sobreviver politicamente.

Esse é o ponto de inflexão. A Ucrânia não é apenas uma guerra regional; é o ensaio geral para um mundo onde o Direito Internacional volta a ser condicionado pelo poder bruto.

Venezuela: Energia como Espaço Vital Moderno

Nesse novo contexto, a Venezuela deixa de ser apenas um “problema latino-americano”. Sob o discurso de democracia, narcotráfico ou colapso humanitário, emerge um fator decisivo: as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta.

A retórica associada a Nicolás Maduro começa a adquirir contornos que lembram o raciocínio do Lebensraum: recursos estratégicos mal administrados tornam-se ameaça sistêmica e, portanto, passíveis de intervenção.

Não se fala mais apenas em Mudanca de Regime. Fala-se, ainda que implicitamente, em reorganização funcional de ativos globais. O petróleo venezuelano passa a ser tratado como elemento de segurança hemisférica, não como propriedade soberana intocável.

Gronelândia: O Espaço Vital do Ártico

A Gronelândia, território da Dinamarca, entra nessa equação não por instabilidade política, mas por valor estratégico crescente: rotas marítimas polares, presença militar no Ártico, minerais raros essenciais à transição energética e à indústria de defesa.

Aqui, o paralelo com Hakko Ichiu é evidente: não se trata de conquista por violência direta, mas de incorporação “natural” à esfera de influência de quem pode proteger, explorar e controlar. O argumento não é moral, é funcional.

A pergunta implícita é brutal: quem faz melhor uso estratégico desse território?

Taiwan: O Hakko Ichiu Reembalado

Quando a China observa Ucrânia, Venezuela e Groenlândia, ela não vê eventos isolados. Vê precedentes acumulados. Taiwan, para Pequim, não é apenas uma ilha: é o coração da cadeia global de semicondutores e um símbolo inacabado da guerra civil chinesa.

A lógica apresentada ecoa o Hakko Ichiu: reunificação, harmonia histórica, correção de uma anomalia criada por potências externas. A mensagem é clara: se outros podem redefinir seu espaço vital, a China também pode.

O Retorno das Esferas de Influência

O fio condutor entre Ucrânia, Venezuela, Groenlândia e Taiwan é o mesmo que unia Japão e Alemanha no século XX:

a convicção de que certos territórios são grandes demais, estratégicos demais ou valiosos demais para permanecerem fora do controle das grandes potências.

A diferença é que hoje isso não se anuncia com tanques desfilando e discursos inflamados, mas com sanções seletivas, pressões econômicas

discursos de segurança coletiva

narrativas de proteção regional

É o Lebensraum tecnocrático.

Ricardo Carvalho é empreendedor, estrategista em tecnologia e articulista, com atuação destacada na interseção entre inovação digital, governança pública, economia institucional e pensamento crítico contemporâneo e escreve sobre temas diversos com uma abordagem analítica, ética e livre de simplificações ideológicas

É o Hakko Ichiu geoeconômico.

Um Mundo Pós-Inocência

Putin não criou esse mundo apenas acelerou sua revelação. Ao quebrar o tabu territorial, abriu espaço para que outras potências revisitem, sem culpa, as doutrinas que julgávamos enterradas.

O século XXI caminha para um sistema internacional mais honesto e, igualmente,  mais perigoso. Honesto porque já não finge que princípios abstratos superam interesses vitais. Perigoso porque normaliza a ideia de que a força volta a ser argumento legítimo.

Hakko Ichiu e Lebensraum não retornaram como slogans. Retornaram como método.

E o mundo parece, mais uma vez, disposto a aceitá-los  desde que venham bem embalados.

A ambição e a cobiça nunca deixaram de ser vícios; apenas foram promovidas a virtudes sempre que acompanhadas de um discurso suficientemente bonito, moralmente conveniente e socialmente aplaudível, afinal, nada torna a rapina mais aceitável do que chamá-la de imperativo socioeconômico.

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