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Mato Grosso, feminicídio e a arquitetura social da violência.


Mato Grosso, feminicídio e a arquitetura social da violência. Joel Mesquita

O feminicídio não é um desvio ocasional da ordem social; é, muitas vezes, um produto coerente dela. Em Mato Grosso, estado que figura de forma recorrente entre os que apresentam altos índices de assassinatos de mulheres, essa coerência se revela na articulação entre cultura política conservadora, moral cristã sectária, desigualdades raciais e uma organização social que normaliza a violência como instrumento de controle.


Para compreender o fenômeno, é preciso ir além da contabilidade penal e examinar a constituição da sociedade que o produz. A teoria da estruturação, de Anthony Giddens, oferece uma chave importante: as estruturas sociais — normas, valores, instituições — não existem fora da ação humana, mas são continuamente reproduzidas por ela. O feminicídio, nesse sentido, não ocorre apesar das normas sociais, mas frequentemente amparado por elas.


Em Mato Grosso, a regionalização do poder e da vida social — outro conceito central em Giddens — ajuda a explicar a persistência do problema. O estado é marcado por grandes extensões territoriais, baixa presença do Estado em áreas periféricas e uma cultura política fortemente ligada ao patriarcalismo rural e a formas rígidas de autoridade. O tempo e o espaço sociais se organizam de modo a reforçar hierarquias: relações pessoais próximas substituem instituições impessoais, e conflitos domésticos permanecem confinados ao “espaço privado”, onde a intervenção pública é vista como indevida.


Essa organização espacial e simbólica cria condições para a naturalização da violência contra mulheres. Normas prescritas — muitas vezes não escritas — definem papéis de gênero baseados na submissão feminina e na autoridade masculina. Quando essas normas são tensionadas, a violência surge como mecanismo disciplinador. Não se trata de episódios isolados, mas de práticas reiteradas que, ao longo do tempo, consolidam expectativas sociais sobre o que mulheres “devem ser” e “onde devem estar”.


 A Racialidade agrava esse quadro. Ângela Davis nos lembra que gênero nunca atua sozinho: ele se entrelaça com raça e classe na produção da opressão. Em Mato Grosso, mulheres negras, indígenas e pobres estão mais expostas à violência letal, justamente por ocuparem posições sociais historicamente desvalorizadas. Seus corpos tornam-se territórios onde se inscrevem relações coloniais ainda não superadas, nas quais a vida é hierarquizada e algumas mortes são socialmente toleradas.


A influência de um cristianismo conservador e sectário também precisa ser analisada com cuidado. Não se trata de responsabilizar a fé em si, mas de reconhecer como determinadas interpretações religiosas reforçam a ideia de submissão feminina, sacralizam a família a qualquer custo e deslegitimam denúncias de violência como “fracasso moral” ou “desvio espiritual”. Nesse contexto, o perdão é exigido das vítimas, enquanto a responsabilização dos agressores é relativizada. A estrutura religiosa, assim, pode funcionar como mais um elemento de reprodução da violência, ao invés de sua contenção.


Giddens enfatiza que as estruturas só se mantêm porque são rotineiramente reproduzidas no tempo. O feminicídio em Mato Grosso revela exatamente isso: uma continuidade histórica de práticas e discursos que atravessam gerações. O tempo social, longe de ser linear e progressivo, acumula silêncios, impunidades e pedagogias da violência. Cada caso não interrompido reforça a mensagem de que a vida das mulheres é negociável.


Romper esse ciclo exige mais do que endurecimento penal. Implica desorganizar as bases sociais que sustentam a violência: questionar modelos de masculinidade, enfrentar o racismo estrutural, disputar sentidos no campo religioso e reconfigurar a presença do Estado nos territórios. Exige, sobretudo, reconhecer que o feminicídio é um fenômeno social total, que fala menos sobre “crimes passionais” e mais sobre a forma como organizamos nossas relações.


Enquanto Mato Grosso continuar a reproduzir, no espaço e no tempo, estruturas que legitimam a desigualdade e silenciam as vítimas, o feminicídio seguirá sendo não uma exceção trágica, mas uma expressão brutal da normalidade social. A pergunta que resta não é por que as mulheres morrem, mas que tipo de sociedade seguimos construindo quando aceitamos que elas morram.


(*) Joel Mesquita – Sociólogo. 


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