Você está vivendo ou postando?
BRUNA BERTHOLDO Quase um ano, em silêncio total,
Fechei a janela do mundo digital,
Encontrei mãos, risos e abraços sinceros,
Pertenci a mim mesma.
Você já se perguntou se as redes sociais estão te servindo ou te consumindo?
Ao acordar, antes do café da manhã, antes do bom dia ao marido, antes da oração, da meditação, da leitura de um livro ou do exercício físico, o celular já está na mão.
O feed abre. Aparecem corpos perfeitos, viagens impecáveis, cozinhas de revista, filhos comportados e casamentos que parecem roteiros de filme.
Em segundos, uma voz sutil, quase inaudível, sussurra: “A minha vida não é assim.”
Somos condicionadas por um sistema projetado para isso.
O documentário O Dilema das Redes, disponível na Netflix, mostra que as redes sociais transformam o usuário em produto, vendendo sua atenção a anunciantes por meio de algoritmos que manipulam comportamentos e criam dependência emocional.
Ele confirma o que o corpo já sente: a exposição constante a estilos de vida aparentemente inalcançáveis distorce a percepção da própria realidade, financeira, estética e emocional.
É uma armadilha construída para gastarmos nossa energia mais preciosa, o tempo, comparando a nossa vida nos bastidores com a vida dos outros nos holofotes.
A Constelação Familiar oferece uma lente poderosa para compreender esse fenômeno de forma mais profunda. Bert Hellinger, seu criador, ensinava que pertencer é uma necessidade primária do ser humano tão vital quanto respirar.
A rede social é um terreno fértil e explora com precisão a ferida do medo de ficar de fora, de não pertencer, de ser esquecida.
Ela é o lugar onde podemos estar de pijama, sem maquiagem, exaustas e, ainda assim, parecer que estamos vivendo o melhor das nossas vidas.
Genial e assustador.
Quando se rola o feed compulsivamente, não está buscando informação. E sim, algumas vezes, tentando sentir que pertence a um grupo, a um padrão, a uma narrativa de sucesso que na família de origem talvez nunca a tenha validado.
A Constelação revela que comportamentos repetitivos de busca por validação externa frequentemente têm raízes em dinâmicas familiares antigas, muitas vezes desde a infância ou até antes do seu nascimento, onde o amor era condicionado à performance.
Quem aprendeu que precisava ser perfeita para ser amada, hoje performa a vida perfeita para ser curtida.
O palco mudou. O padrão, não.
Não estou aqui para depreciar a tecnologia nem em desaparecer do mundo digital de uma vez. E sim, esclarecer que é possível curar esse padrão, não fechando o aplicativo, mas identificando que pode ser uma ferida do sistema familiar e reconhecer que a criança dentro de nós pertence a nós mesmas e é amada, não precisa de aprovação.
Também, estabelecendo horários para mover o dedão nos stories ou o indicador no feed alheio e servir à sua própria história.
Dessa forma, investir tempo no que realmente alimenta o espírito: a leitura, o movimento do corpo, a conversa com a família, parentes, amigas, a oração, estudar, o silêncio. Circunstâncias que não cabem em story de quinze segundos, não têm filtro nem curtida.
A vida off line tem cheiro de café passado no bule ou chá, como preferir, abraço que não cabe em tela e o sabor da comida que só quem amamos sabe fazer. É cheia de carrossel, alguns que não ficariam bem num feed esteticamente, e tudo bem.
Não tem algoritmo que decida o que você merece ver, tampouco botão de silenciar aquela pessoa que, na real, você não escolheria seguir.
A existência recolhida em si nem sempre é perfeita, é sem filtro e sem música de fundo. Exige presença, coragem, a humildade de admitir que errou sem poder deletar o que enviou.
Ela respeita o livre arbítrio: aguarda, em silêncio, que você escolha amar a si mesma para então amar ao próximo.
A vida é bonita e vale infinitamente mais que qualquer métrica de engajamento.
Porque no final, o que toca no coração não é o que postamos. É o que vivemos.
O que você encontraria em si mesma se não usasse a rede social por horas, dias ou meses?
(*) BRUNA BERTHOLDO é Escritora. Poeta. Consteladora Familiar.
Neurociência aplicada.
Instagram: @brunabertholdocf
Substack: @brunabertholdo







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