Eleição 2026: muito ódio, pouca política
Nunca se falou tanto em adversários e tão pouco nos problemas que os eleitos terão de enfrentar.
João Edisom de Souza Entramos na última semana da campanha eleitoral para o primeiro turno de 2026 com uma constatação incômoda: assistimos a uma das campanhas mais pobres em conteúdo desde a redemocratização. Não por falta de dinheiro, tecnologia ou comunicação. Nunca tivemos tantos vídeos, cortes, redes sociais e possibilidades de falar diretamente ao eleitor. O que faltou foi justamente aquilo que deveria justificar uma eleição: política.
O Brasil e os estados praticamente desapareceram da campanha. Economia, emprego, renda, saúde, educação, segurança, infraestrutura e desenvolvimento foram empurrados para o canto. No centro do palco ficaram agressões, provocações, palavras chulas e a tentativa permanente de destruir reputações. Para muitos candidatos, parece mais importante explicar por que devemos odiar o adversário do que dizer o que pretendem fazer se forem eleitos.
A Psicologia Social ajuda a entender essa pobreza. Medo, raiva e indignação mobilizam mais rapidamente que argumentos complexos. Na polarização, o adversário deixa de ser alguém que pensa diferente e passa a ser tratado como ameaça. A política abandona a racionalidade e entra no terreno da identidade: já não é necessário demonstrar que minha proposta é melhor; basta convencer minha torcida de que o outro é intolerável. É o triunfo da reação sobre a reflexão.
A Filosofia há séculos alerta para o perigo de uma vida pública dominada exclusivamente pelas paixões. Aristóteles relacionava a política à organização da vida coletiva e ao bem comum. Hannah Arendt valorizava o espaço público como território da palavra, da ação e da pluralidade. Quando substituímos argumentos por insultos, não aprofundamos a divergência democrática. Apenas produzimos barulho. E barulho não governa.
Mais preocupante ainda é observar candidatos que demonstram desconhecimento básico sobre o cargo que pretendem ocupar. Prometem o que constitucionalmente não poderão entregar, confundem atribuições do Executivo com as do Legislativo e constroem candidaturas inteiras dizendo contra quem estão, mas apresentam enorme dificuldade para explicar a favor de quê estão.
A Ciência Política ensina que uma campanha também deveria cumprir função pedagógica: apresentar alternativas, estabelecer prioridades e permitir ao eleitor comparar projetos. Uma eleição deveria responder perguntas simples: qual é o diagnóstico do candidato? Quais suas prioridades? O que pretende fazer? Quanto custará? De onde virão os recursos? Que interesses representará?
Em 2026, essas perguntas foram frequentemente soterradas pela agressividade.
Criamos uma espécie de política sem objeto: fala-se compulsivamente de política, mas quase nada de políticas públicas. Discute-se quem odiar, combater ou derrotar. Enquanto isso, o cidadão continua esperando saber quem tem propostas para melhorar sua escola, seu hospital, sua segurança, seu emprego e sua renda.
Democracia não exige candidatos concordando entre si. Exige divergência, confronto de ideias e alternativas. Mas existe uma diferença elementar: divergir exige argumento; ofender exige apenas um microfone.
O risco é terminarmos elegendo representantes não pela capacidade de construir soluções, mas pela competência em fabricar inimigos.
Ainda resta uma semana. Tempo suficiente para devolver à campanha aquilo que jamais deveria ter desaparecido dela: o Brasil, os estados e, principalmente, as pessoas.
Eleição não deveria ser concurso de insultos nem campeonato de indignação. Serve para escolher quem governará, legislará, fiscalizará e tomará decisões que afetarão milhões de vidas.
Quando uma campanha esquece seu verdadeiro propósito, não é apenas a política que empobrece.
É a democracia que perde conteúdo.
(*) JOÃO EDISOM DE SOUZA é Professor universitário e analista Político.







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