Honestidade vale mais que ideologia
Nenhum país se torna desenvolvido sem cidadãos conscientes, bem informados e comprometidos com a ética
João Edison Há uma pergunta que há décadas divide sociedades, domina eleições e alimenta paixões: afinal, um país prospera porque escolheu a direita ou a esquerda?
A história demonstra que essa talvez seja a pergunta errada.
O verdadeiro divisor entre nações prósperas e nações fracassadas não está, em primeiro lugar, na ideologia de seus governantes, mas na qualidade moral de suas instituições e de seus cidadãos.
Ideologias podem orientar políticas públicas e definir prioridades econômicas, mas nenhuma delas é capaz de produzir prosperidade quando serve de abrigo para a corrupção, o oportunismo e a falta de responsabilidade pública.
A filosofia política já compreendia essa realidade. Aristóteles ensinava que a finalidade da política é promover o bem comum e que nenhuma forma de governo permanece saudável quando seus governantes abandonam a virtude.
Séculos depois, Montesquieu reforçou que leis e instituições só funcionam quando sustentadas pela virtude cívica.
Em outras palavras, não basta possuir boas regras; é preciso que aqueles que exercem o poder sejam honestos.
A psicologia social explica por que tantas vezes a sociedade tolera desvios éticos.
Quando a ideologia ocupa o lugar dos princípios, muitas pessoas deixam de julgar os atos pela honestidade e passam a julgá-los apenas pela identidade política de quem os pratica.
O corrupto é defendido porque pertence ao "meu lado", enquanto o adversário é condenado por qualquer erro.
Esse comportamento, conhecido como viés de confirmação, fortalece a polarização e enfraquece a capacidade de reconhecer a verdade.
A própria ciência política demonstra que a ideologia, isoladamente, não determina o sucesso de uma nação.
Países de orientação mais liberal ou conservadora, como Singapura, Suíça e Nova Zelândia, destacam-se pela baixa corrupção e instituições sólidas.
Ao mesmo tempo, governos de direita em países como Hungria, Guatemala e El Salvador enfrentam críticas relacionadas à corrupção, concentração de poder ou fragilidade institucional.
O mesmo ocorre entre governos de esquerda. Enquanto Noruega, Suécia e Dinamarca figuram entre os países mais transparentes do mundo, Venezuela e Nicarágua mostram como corrupção, autoritarismo e enfraquecimento institucional podem conduzir uma nação ao declínio.
Esses exemplos deixam clara uma conclusão: a honestidade não possui lado ideológico. Ela depende do caráter das pessoas e da força das instituições.
É justamente nesse ponto que o debate político brasileiro costuma se perder.
Platão já advertia que o maior perigo para uma cidade não era apenas a existência de maus governantes, mas a incapacidade do povo de distinguir aqueles que governam para servir daqueles que governam para servir-se do poder
Muitos acreditam que basta substituir um governo de esquerda por um de direita, ou um governo de direita por um de esquerda, para que os problemas sejam resolvidos. Essa é uma ilusão perigosa.
Não se combate um governo desonesto com outro governo igualmente desonesto apenas porque a ideologia é diferente. Não se derrota a corrupção elegendo novos corruptos.
Trocar apenas a bandeira ideológica, mantendo os mesmos vícios morais, significa apenas mudar os ocupantes do poder, preservando o mesmo sistema de privilégios e impunidade.
Platão já advertia que o maior perigo para uma cidade não era apenas a existência de maus governantes, mas a incapacidade do povo de distinguir aqueles que governam para servir daqueles que governam para servir-se do poder.
Quando o eleitor escolhe apenas pela identidade ideológica, deixando em segundo plano o caráter, a competência e a honestidade, abre espaço para que oportunistas utilizem qualquer bandeira política como instrumento de enriquecimento pessoal.
Nenhuma ideologia transforma um corrupto em administrador honesto. Nenhum programa econômico substitui o caráter.
Da mesma forma, nenhum país se torna desenvolvido sem cidadãos conscientes, bem informados e comprometidos com a ética.
O estudo desenvolve pensamento crítico; a experiência fortalece o discernimento; e ambos reduzem o espaço para discursos vazios e promessas milagrosas.
A democracia amadurece quando a sociedade passa a valorizar mais a integridade do que o discurso, mais a competência do que a retórica e mais a honestidade do que a cor partidária.
Antes de perguntar se um governo é de direita ou de esquerda, deveríamos perguntar se ele é honesto, respeita as instituições e administra o patrimônio público com responsabilidade.
Enquanto o eleitor aceitar substituir um corrupto por outro apenas porque veste uma camisa de cor diferente, continuará alimentando o mesmo sistema que diz combater.
A verdadeira transformação política começa quando a honestidade deixa de ser uma qualidade desejável e passa a ser uma exigência inegociável da sociedade.
No fim, o verdadeiro antagonismo não é entre direita e esquerda. O verdadeiro antagonismo é entre honestidade e corrupção.
Quando a ética se torna o principal critério de escolha, a ideologia volta ao seu devido lugar: um instrumento de gestão do Estado, e não um escudo para proteger desonestos.
JOÃO EDISOM é analista político e professor universitário.






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