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Do concreto e das lembranças


Do concreto e das lembranças Gonçalo A. B. Neto

Cuiabá sempre foi como um mistério envolto em seu calor ardente. Aquele que aportava na capital de Mato Grosso, em tempos passados, deparava-se com um lugar que parecia pulsar no compasso suave das águas do Rio Cuiabá.

Era a "Urbe Esmeralda", um nome que não brotou de um projeto arquitetônico, mas da bondade das mangueiras, cajueiros e figueiras que, de maneira generosa, erguiam suas copas em cada pátio, convertendo as vias em corredores de alívio contra o sol ardente.

Atualmente, nossa tranquila Cuiabá, com suas margens aquáticas, se encontra diante do reflexo de uma nova era, onde a rapidez do desenvolvimento e as exigências de uma cidade grande envolvem e testam sua verdadeira natureza. A transformação se revela ao longe, como um pôr do sol que muda tintas no céu.

Onde a paisagem antes se escondia sob o manto verde das árvores, agora se depara com torres que disputam o céu. Arranha-céus de cristal e metal despontam como ícones reluzentes de uma força econômica alimentada pelo agronegócio, que fez da capital o coração administrativo e logístico de um estado que nutre o planeta.

Cuiabá já não é mais apenas um “pit stop” para quem busca ouro ou um local para a pecuária das vacas magras; agora, virou um verdadeiro centro pulsante de serviços, inovação tecnológica e compras.

Entretanto, esse aumento veio acompanhado das típicas agruras da urbanização fora de controle: o pavimento que segura o calor como um abraço quente, o tráfego que desafia a serenidade do cuiabano e a camada dura que faz o solo chorar durante a temporada de chuva.

O Rio Cuiabá, que um dia foi o coração pulsante da cidade, agora assiste a essa mudança com a tristeza de alguém que ficou jogado na gaveta. Se outrora ele era o teatro das lavadeiras, dos pescadores e das festividades religiosas que navegavam em belíssimas procissões aquáticas, atualmente ele batalha contra a contaminação e o acúmulo de sedimentos.

A metrópole, que surgiu de costas para o fluxo do rio, parece estar em uma eterna dança de reconciliação com suas águas. Iniciativas para rejuvenescer áreas e criar parques ao longo das margens buscam trazer de volta aos moradores de Cuiabá a alegria de admirar o sol se despindo no horizonte. Contudo, a lacuna entre o sonho e a realidade ainda é calculada pela negligência crônica em relação ao saneamento básico.

Nesse contexto de mudança, os personagens que habitam a mente cuiabana adquirem formas de luta. Discutir sobre Cuiabá é como abrir um baú repleto de figuras que encarnam a essência desta terra encantada. Em que lugar andaria agora o "Mestre Ignácio", com sua sabedoria de quem vive na margem do rio, observando as dragas que transformam o leito das águas? Personagens como o poeta Silva Freire, que traduziu a "cuiabanidade" em poesia, parecem hoje murmurar nas rachaduras dos edifícios, lembrando que a cidade possui uma forma física, mas também uma alma vibrante. A Cuiabá de "Liu Arruda", que ria das próprias desventuras e hábitos, agora se encontra em uma encruzilhada. Das antigas, simbolizava um tempo em que os vizinhos eram como membros da própria família, sempre prontos para trazer risadas e histórias entrelaçadas.

Atualmente, o ataque das novas verdades ergue barreiras imensas e arame farpado carregado de eletricidade. Onde antes o "tchá por deus" dançava nas rodas de bate-papo na calçada, hoje reina o sossego bem-guardado dos prédios fechados. A tranquilidade se despediu e cedeu espaço a um desassossego que não bate com os quarenta graus de calor, tecendo um enredo cheio de suspense entre quem éramos e quem nos transformamos. O grande teste que a Cuiabá dos nossos dias enfrenta é evitar que as novidades façam desaparecer as memórias do passado.

No fundo, a teimosia dos cuiabanos é como um abraço apertado: vem de um carinho imenso pela sua terra. Enquanto existir quem reconheça o valor de um peixe frito à margem do rio, ou quem se deixe levar pelo canto do cururu sob as estrelas durante uma festança de santo, a cidade cheia de matizes permanecerá pulsante.

É por aí...

(*) GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO (Saíto) é do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso – IHGMT (podbedelhar@gmail.com).

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.aimprensadecuiaba.com.br

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