China não me mostrou só tecnologia. Me mostrou que o mundo é de quem executa melhor e mais rápido.
Juscelino Araujo
Juscelino Araujo Sair da minha cidade para o outro lado do mundo é uma mistura difícil de explicar. Tem medo, tem ansiedade, tem cansaço, tem orgulho e tem aquela sensação de estar indo para um lugar completamente novo, com uma cultura completamente diferente, carregando na mala muito mais do que roupas, documentos e equipamentos.
Eu saí de Cuiabá rumo à China como representante da Sentinela, minha startup, para integrar a comitiva brasileira do Programa Caminhos do Sul Global: Cooperação Internacional para a Justiça Racial. E, sendo o único representante do meu estado nessa missão, a sensação é ainda maior: não é só sobre mim. É sobre levar um pouco do que existe de melhor em Mato Grosso, da nossa força empreendedora, da nossa criatividade e da nossa capacidade de construir soluções mesmo quando o caminho nunca foi simples. Isso é difícil de mensurar. Mas é muito bom de sentir.
A jornada até Ningbo foi longa. Foram quatro voos, conexões, esperas, embarques e desembarques. Saí de Cuiabá, passei por São Paulo, depois Londres, Chengdu e, finalmente, cheguei a Ningbo. No fim, foram cerca de 35 horas de viagem. Cansa? Muito. Mas quando a gente chega e entende o tamanho da oportunidade, tudo passa a fazer sentido. A primeira ficha caiu ainda em Guarulhos, quando o meu grupo se encontrou para seguir viagem rumo à China.
A comitiva saiu dividida em grupos, e ver aquele conjunto de afroempreendedores brasileiros, cada um com sua história, seu sotaque, sua trajetória e sua bagagem de vida, já mostrava que aquilo não era uma viagem comum. Mas a certeza mesmo veio na cerimônia de boas-vindas, na Universidade Politécnica de Ningbo. Ali eu pensei: agora sim, #JusceTaNaChina. E não como turista. Não como alguém apenas observando de longe. Mas como parte de uma missão internacional de inovação, tecnologia, inteligência artificial, manufatura inteligente e cooperação entre Brasil e China.
Estar com outros afroempreendedores brasileiros tem sido uma experiência transformadora. Ouvir histórias de sucesso, desafios, superações e visões de mundo amplia muito o nosso horizonte. Cada conversa mostra que existe uma potência enorme espalhada pelo Brasil, muitas vezes invisibilizada, subestimada ou sem acesso aos espaços onde o futuro é discutido. Por isso, quando falamos de representatividade, não estamos falando de uma palavra bonita para colocar em discurso. Estamos falando de presença real. Presença negra em ambientes de ciência, tecnologia, inovação e cooperação internacional. E isso é algo surreal, importante e imensurável para a história negra do Brasil.
O Programa Caminhos do Sul Global tem esse peso. Ele não é apenas uma agenda internacional. Ele carrega uma mensagem muito forte: pessoas negras precisam estar também nos espaços onde se discute inteligência artificial, desenvolvimento tecnológico, futuro do trabalho, indústria, inovação e novos modelos de crescimento econômico. Para mim, fazer parte disso tem dois significados muito fortes.
O primeiro é pessoal. É olhar para a minha trajetória como empreendedor e reconhecer que ela tem valor. É parar de diminuir a própria caminhada. É calar, nem que seja por alguns dias, aquela síndrome do impostor que às vezes tenta fazer a gente acreditar que chegou ali por acaso. Não. Não foi por acaso. Existe trabalho, entrega, estudo, tentativa, erro, recomeço e muita construção por trás de cada oportunidade.
O segundo significado é coletivo. Ver a presença negra acontecendo nesses espaços mostra que algo está se movendo. E precisa se mover cada vez mais. Porque o mundo só evolui de verdade quando diferentes formas de pensar, viver, criar e resolver problemas conseguem sentar na mesma mesa.
A recepção chinesa também me marcou muito. Eles têm sido extremamente solícitos, amigáveis e cuidadosos com a comitiva. Existe uma preocupação visível em fazer com que a gente se sinta bem, acolhido e respeitado. A hospitalidade tem sido surpreendente. E a formalidade da abertura, longe de parecer fria, passou uma sensação de importância.
A sensação era: vocês são esperados. Vocês são vistos. Essa presença importa.
A Universidade Politécnica de Ningbo impressiona logo de início. É enorme, arborizada, organizada e tecnológica. Mas o que mais me chamou atenção não foi apenas a estrutura física. Foi perceber que a história, o objetivo e o papel da universidade são levados a sério. A instituição tem uma trajetória iniciada em 1959, tornou-se uma instituição pública de ensino superior em 1999 e hoje atua com dezenas de programas em áreas como manufatura inteligente, inteligência artificial, turismo, cadeia de suprimentos e outros setores estratégicos. Também possui uma forte atuação em cooperação internacional e na integração entre educação, indústria e pesquisa aplicada.
E talvez esse seja um dos pontos que mais me provocou nesses primeiros dias: aqui, a universidade não parece ser uma ilha separada do mercado. Pelo contrário. O mercado corre atrás da universidade. Empresas querem estar próximas. Querem fazer parte do ecossistema. Querem ocupar espaço onde os próximos talentos serão formados. Querem investir, testar, validar, construir e se conectar com quem está produzindo conhecimento. E os aportes financeiros não parecem conversa de evento bonito. Existe dinheiro, estrutura e incentivo real para ideias acontecerem.
Isso me fez pensar muito no Brasil. Aqui, muitas vezes, falamos muito bem sobre inovação. Fazemos bons discursos. Criamos bons eventos. Montamos painéis, escrevemos projetos, defendemos a importância da tecnologia. Mas quando chega a hora de investir de verdade, muita gente recua. Recua porque não vê importância imediata. Recua porque não entende o retorno. Recua porque ainda trata inovação como luxo, e não como sobrevivência.
No segundo dia, durante a palestra sobre inteligência artificial, uma percepção ficou muito forte para mim: a China não está olhando para IA apenas como um festival de novas ferramentas. O foco não parece ser simplesmente criar mais uma plataforma, mais um aplicativo, mais uma tecnologia para impressionar. O foco é usabilidade real. É fazer a inteligência artificial funcionar nos setores comerciais, industriais, sociais e produtivos. É transformar tecnologia em ganho concreto. É entender como aquilo melhora processos, aumenta produtividade, reduz desperdícios, melhora decisões e impacta a vida das pessoas.
Essa visão me deixou pensativo. Porque, no fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja: “qual é a próxima ferramenta?”. A pergunta mais importante talvez seja: “como o que já existe pode ser útil para mais pessoas, mais empresas e mais cadeias de produção?”. Usabilidade. Utilidade. Aplicação prática. Essas parecem ser as palavras de ordem.
E isso conversa diretamente com a Sentinela, com o que estamos construindo. Ainda estamos no começo da programação, mas já deu para pensar em várias possibilidades. Observar como eles fazem a inovação acontecer, como conectam inteligência artificial, indústria, educação, mercado e venda de ideias, tem mexido com a minha forma de olhar para o produto, para a estratégia e para o futuro da Sentinela. Não é apenas sobre criar uma solução tecnológica. É sobre criar algo que realmente faça sentido para quem vai usar. Algo que simplifique. Algo que proteja. Algo que ajude pessoas e empresas a tomarem decisões melhores. Algo que tenha utilidade clara.
A grande reflexão que levo desses dois primeiros dias é: precisamos pensar mais em usabilidade.
No Brasil, ainda tratamos inovação como algo distante, caro, sofisticado demais ou reservado apenas para grandes empresas. Mas isso é um erro perigoso. Todos precisam inovar. O pequeno negócio, a startup, a indústria, o setor público, a educação e até mesmo o campo social precisa inovar. Não porque inovação é bonita. Mas porque quem não entende o movimento do mundo corre o risco de ser engolido por ele.
E talvez essa tenha sido a maior provocação que a China me trouxe até agora: o futuro não pertence apenas a quem tem mais ideias. Pertence a quem consegue executar melhor, mais rápido e com mais clareza de aplicação. A China não me mostrou só tecnologia. Me mostrou que o mundo é de quem executa melhor e mais rápido.
E eu cheguei aqui com gratidão, mas também com responsabilidade. Responsabilidade de voltar para o Brasil com mais repertório, de transformar essa experiência em projetos, conteúdos, produtos, conversas, provocações e caminhos.
Porque uma missão como essa não termina quando a viagem acaba. Ela começa de verdade quando aquilo que a gente viveu volta para casa e se transforma em ação.








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