População em situação de rua cresce 12% em Mato Grosso
Mais de 1.700 vivem nas ruas de Cuiabá; dependência química, desemprego e desigualdade racial estão entre os principais fatores apontados por especialistas.
O número de pessoas em situação de rua em Mato Grosso aumentou 12% em apenas um ano. Em 2024, eram 3.603 registros, já em 2025, o total saltou para 4.068 pessoas vivendo sem moradia no estado. Quase metade delas está em Cuiabá, onde 1.758 pessoas sobrevivem nas ruas.
Os dados são do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua e do CadÚnico do Governo Federal e revelam um cenário que vai além dos números: são histórias marcadas por conflitos familiares, dependência química, desemprego e exclusão social.
A rua virou endereço para um homem de 33 anos. Após um desentendimento familiar e o agravamento do vício em drogas, ele optou por ficar na rua.
“Tive um desentendimento com minha mãe, e passei a viver na rua em 2017. Eu caí em situação de rua por causa das drogas também, não só foi o desamparo familiar. Eu não tive desprezo, só foi parte de droga no meu caso”, relatou o homem que decidiu não se identificar.
Segundo ele, sair das ruas é um desafio maior do que enfrentar o preconceito. “Não é que seja fácil. A gente arruma dinheiro quase todo dia. Se for juntar o quanto eu junto no mês, dá mais do que um assalariado. Em parte de droga, vai tudo”, afirmou.
Em Cuiabá, os dados mostram um perfil predominante, 91% são homens, 82% são pessoas negras, 58% não concluíram o ensino fundamental, 94% vivem sozinhos e mais de 1.500 afirmaram não ter qualquer contato com familiares
Para o pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Cristiano Silva, o problema está ligado também a questões estruturais históricas.
“Nós temos uma questão muito vinculada ao racismo estrutural. A cada 10 pessoas na situação de rua, sete são negras. Aí a gente pode voltar até lá no final do período escravocrata. Com essas pessoas libertas e com leis que proibiam elas ao acesso à educação, saúde, o que foi ao longo dos anos gerando diversas mazelas em relação à população negra no país”, explicou.
Ele reforça que não há uma causa única. “São políticas habitacionais, casa. Mas é uma política que tem que dialogar com outras, porque não adianta só ter a casa, não adianta tirar da rua. Você tem que criar condições para que a pessoa não volte para a rua.”
Na capital, o atendimento é realizado pelo Centro Pop, localizado na Rua Comandante Costa. O espaço oferece alimentação, banho, emissão de documentos, atendimento psicossocial e encaminhamentos para a saúde.
O gerente da unidade, Robson Aguiar, explica como funciona o acolhimento:
“A partir do momento que a gente faz toda a triagem dele, a gente sabe os caminhos corretos para encaminhá-los. Muitos podem receber benefícios, outros vêm atrás de documentação ou até mesmo em busca de um abrigo para poder ter um pouco de tranquilidade para poder sair dessa situação em que eles se encontram.”
Apesar do trabalho, a estrutura não comporta a demanda atual. Hoje, Cuiabá oferece 250 vagas distribuídas em três abrigos. “Para trabalhar na média de 10 a 15 pessoas sem vagas por dia, a gente teria que trabalhar com umas 500 vagas tranquilamente aqui em Cuiabá”, afirmou o gerente.
O diretor de políticas públicas para a população em situação de rua de Cuiabá, Cleverson Leite de Almeida, afirma que o município trabalha para ampliar o atendimento e criar oportunidades de reinserção social.
“Estamos tentando fazer a mudança de alguns prédios, melhorar a capacidade para atendimento, aumentando o número de vagas, trabalhando a ideia desse usuário para que ele tenha consciência de que ele pode voltar ao seu familiar. Temos também ações junto com outras secretarias, como a Limpurb, ofertando algumas vagas de emprego para que eles possam sair dessa vida que hoje estão vulneráveis.”
Na área habitacional, a secretária municipal de Habitação e Regularização Fundiária, Michelle Dreher Alves, informou que 3% das unidades do programa Casa Cuiabana foram destinadas a pessoas em situação de rua.
“No primeiro empreendimento que nós estamos sorteando são 500 unidades. Então seriam 3% disponíveis para os moradores de rua. Eles têm essa chance de participar do sorteio e ser contemplados. Mas esses 3% também não são só para quem está em situação de rua hoje, é para quem em algum momento já passou por essa situação.”
Segundo ela, 25 pessoas se declararam em situação de rua no primeiro sorteio. “Como é autodeclaratório, eles se autodeclararam assim. Agora precisa ter a comprovação, passar pela validação do conselho e pela Caixa Econômica.”
Enquanto as políticas públicas avançam lentamente, o número de pessoas vivendo nas ruas continua crescendo e revela que a solução exige mais do que ações pontuais.







COMENTÁRIOS