Os novos berrantes e a busca da verdade
O “pasto” ofertado ao eleitor contemporâneo nem sempre é material
Marcelo Portocarrero Antigamente, a percepção do poder e do eleitorado no Brasil apoiava-se em uma imagem límpida e rústica. Havia os berrantes, empunhados pelos chefes políticos locais ou pelos coroneis da região. Seu toque atravessava as distâncias para reunir a manada em torno do pasto que lhe era estendido: o favor individual, a benesse temporária, a pequena quantia e a proteção pervertida. O rebanho seguia aquele som porque era o único que conhecia, aceitando o jugo com naturalidade, quase como uma fatalidade.

O “pasto” ofertado ao eleitor contemporâneo nem sempre é material
Será que hoje ainda vivemos sob essa mesma lógica? A resposta exige olhar além do cenário visível.
A fisionomia da política mudou, mas a tentação do rebanho fácil continua viva. A diferença crucial é que os berrantes se multiplicaram. O som já não ecoa em uma única praça ou comício, mas deságua sem trégua pelas redes sociais, pelas mídias fragmentadas e pelos algoritmos de recomendação.
Se antes o coronelismo dependia do contato físico e da troca direta de lealdade por subsistência, hoje a captura se dá no campo do afeto e da ideologia. O “pasto” ofertado ao eleitor contemporâneo nem sempre é material; muitas vezes é a validação moral, o sentimento de pertencimento a um grupo ou a oferta de narrativas prontas que alimentam o ressentimento e o confronto.







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