Dinheiro, TV e palanques: o tamanho das máquinas na disputa em MT
Embora todos os candidatos possam gastar até R$ 7,1 milhões no 1º turno, há pontos de partida distintos
Os seis candidatos ao Governo de Mato Grosso poderão gastar exatamente o mesmo valor máximo na campanha eleitoral: R$ 7.115.522,46 no primeiro turno.
Se houver segundo turno, os dois classificados poderão desembolsar mais R$ 3.557.761,23 cada um.
O teto foi mantido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nos mesmos valores das eleições de 2022.
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A igualdade determinada pela Justiça Eleitoral, porém, termina praticamente aí.
A largada para a corrida ao Palácio Paiaguás expõe candidatos sustentados por partidos nacionais com centenas de milhões de reais em recursos públicos, amplas coligações e dezenas de lideranças políticas, enquanto outros entram na disputa por siglas pequenas, sem representação relevante no Congresso e com uma fração dos recursos disponíveis aos grandes partidos.

É essa diferença de estrutura que está por trás do argumento utilizado pela candidata Natasha Slhessarenko (PSD), ao tentar explicar por que aparece atrás de Wellington Fagundes (PL) e Otaviano Pivetta (Republicanos), nas primeiras pesquisas depois das convenções.
Na pesquisa Real Time Big Data, realizada entre 7 e 11 de agosto, Wellington aparece com 34% das intenções de voto, Pivetta com 26% e Natasha com 13%.
Rafael Milas (Missão) tem 3%, Sargento Laudicério (Agir), 1%, e Maurício Coelho (Mobiliza) não pontuou.
O levantamento ouviu 1.600 eleitores e tem margem de erro de dois pontos percentuais.
Natasha sustenta que começa a campanha enfrentando dois adversários com estruturas políticas consolidadas. Wellington está no Senado e acumula décadas de atuação parlamentar, enquanto Pivetta disputa a reeleição ocupando o Governo do Estado.
A candidata aposta principalmente no início da propaganda eleitoral para ampliar seu conhecimento junto ao eleitorado.
Mas quanto essa diferença de estrutura pode representar na prática?
FUNDO ELEITORAL — Um primeiro indicador está no tamanho dos partidos.
O Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) para as eleições deste ano soma R$ 4,961 bilhões.
O dinheiro não pertence diretamente aos candidatos: é repassado aos partidos, que definem internamente como distribuir os recursos entre suas campanhas.
Portanto, o valor nacional de uma legenda não significa que o candidato ao Governo de Mato Grosso receberá aquela quantia.
Ele mostra, porém, a capacidade financeira potencial de cada estrutura partidária.
Nesse quesito, Wellington parte do partido com a maior fatia do Fundo Eleitoral do país.
O PL tem R$ 881,65 milhões, equivalentes a 17,77% de todo o fundo.
É mais que o dobro da verba destinada ao PSD de Natasha e mais de duas vezes e meia o montante do Republicanos de Pivetta.
O PSD, partido de Natasha, dispõe nacionalmente de R$ 421 milhões. Já o Republicanos, de Pivetta, tem R$ 348,58 milhões.
A distância aumenta quando se observam os candidatos sustentados por legendas menores.
Missão, Agir e Mobiliza aparecem com R$ 3,307 milhões cada no cálculo nacional do Fundo Eleitoral, porque não possuem a representação parlamentar que garante as maiores parcelas distribuídas segundo votos e bancadas na Câmara e no Senado.
O Novo, partido do candidato a vice de Wellington, Reinaldo Moraes, tem direito a aproximadamente R$ 37 milhões.
Esses valores, contudo, não podem ser somados mecanicamente para determinar quanto cada campanha terá.
A legislação garante autonomia às direções partidárias para definir a destinação do Fundo Eleitoral dentro das regras estabelecidas para sua aplicação.
COLIGAÇÕES — A diferença também aparece no tamanho dos palanques.
Wellington fechou sua coligação com PL, MDB, Novo e PRD e escolheu Reinaldo Moraes (Novo) para candidato a vice-governador.
A aliança reúne partidos que, nacionalmente, administram fatias muito diferentes do Fundo Eleitoral.
Além dos R$ 881,65 milhões do PL, o MDB dispõe de cerca de R$ 400 milhões, o PRD de R$ 71,8 milhões e o Novo de R$ 37 milhões.
Novamente, esses recursos pertencem às legendas em nível nacional e não constituem um caixa comum da candidatura de Wellington.
A chapa ainda reúne duas candidaturas ao Senado: José Medeiros (PL) e Janaina Riva (MDB), embora a composição com o MDB tenha provocado resistência de parte da estrutura bolsonarista do próprio PL.
Pivetta, por sua vez, tem Gisela Simona (União Brasil) como candidata a vice.
A composição mantém a aliança do Republicanos com a Federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, além do apoio da Federação PSDB/Cidadania.
Só União Brasil dispõe nacionalmente de R$ 526,24 milhões do Fundo Eleitoral e o PP, de R$ 417 milhões. O Republicanos tem R$ 348,58 milhões.
Natasha também está longe de disputar isoladamente.
Sua candidatura pelo PSD é apoiada pela Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, e tem Diogo Botelho (PDT) como vice.
A mesma composição sustenta Carlos Fávaro (PSD) e Pedro Taques (PSB) para o Senado.
Nesse grupo estão algumas das maiores estruturas nacionais: o PT tem R$ 615,36 milhões do FEFC; PSD, R$ 421 milhões; PDT, R$ 169,28 milhões; PSB, R$ 152,25 milhões; PCdoB, R$ 60,53 milhões; e PV, R$ 45,18 milhões.
Isso reforça uma distinção importante: estar atrás nas pesquisas não significa necessariamente disputar sem estrutura partidária.
Natasha não ocupa cargo eletivo e não dispõe da exposição institucional de Wellington ou Pivetta, mas sua coligação reúne partidos com representação significativa no Congresso e acesso relevante ao financiamento eleitoral.
TV E RÁDIO — Outra diferença começará a ficar visível ao eleitor a partir de 28 de agosto, quando começa a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão para o primeiro turno. A veiculação segue até 1º de outubro.
O tempo não é dividido igualmente entre os candidatos.
A Justiça Eleitoral utiliza a representação dos partidos na Câmara dos Deputados como base para calcular a propaganda gratuita, seguindo a composição aferida para as eleições de 2026.
Assim, candidaturas apoiadas por partidos maiores tendem a dispor de mais exposição do que concorrentes lançados por legendas pequenas.
A quantidade exata de segundos que caberá a cada candidato ao Governo de Mato Grosso ainda precisa ser consolidada com as coligações registradas definitivamente na Justiça Eleitoral.
O prazo para registro das candidaturas termina neste sábado (15).
Essa distribuição será particularmente relevante para candidatos menos conhecidos.
Natasha já admite que aposta na televisão e no rádio para reduzir a distância em relação aos dois primeiros colocados.
Para Milas, Laudicério e Maurício Coelho, a dificuldade tende a ser ainda maior: os três disputam por partidos que não possuem bancada capaz de gerar parcela relevante do tempo proporcional.
MÁQUINA NÃO É CAMPANHA — No caso de Pivetta, há ainda uma diferença específica. Ele disputa a eleição no exercício do cargo de governador.
Isso lhe garante exposição institucional decorrente da própria função, mas a legislação eleitoral estabelece restrições para impedir o uso da estrutura administrativa em benefício eleitoral.
Recursos públicos, servidores, veículos, publicidade institucional e atos governamentais não podem ser utilizados como extensão da campanha.
Portanto, chamar o Governo do Estado de “máquina eleitoral” não significa que seu orçamento possa ser utilizado eleitoralmente.
O que existe é uma vantagem política potencial associada à ocupação do cargo: presença em eventos oficiais, conhecimento público e relacionamento com prefeitos, deputados e lideranças.
Wellington apresenta característica diferente. Não controla a administração estadual, mas chega à campanha depois de longa trajetória parlamentar e com uma rede construída no Senado, na Câmara e nos municípios.
Natasha possui a estrutura partidária do PSD e das legendas aliadas, mas entra em sua primeira campanha efetivamente disputada para um cargo eletivo.
Ela chegou a ser homologada como candidata ao Senado em 2022, mas desistiu antes da eleição.
PREFEITOS E DEPUTADOS — É justamente fora das contas oficiais que aparece uma das estruturas mais difíceis de medir.
Prefeitos aliados podem abrir agendas no interior, mobilizar lideranças e aproximar candidatos de vereadores, empresários e representantes de setores locais.
Deputados estaduais e federais carregam suas próprias redes eleitorais, enquanto candidatos proporcionais funcionam como multiplicadores da campanha majoritária nos municípios.
O mesmo acontece com os candidatos ao Senado: uma chapa com nomes competitivos cria palanques cruzados e amplia a circulação do candidato ao Governo.
O tamanho real dessas redes somente poderá ser medido com precisão depois do encerramento dos registros, quando estiverem consolidadas as chapas proporcionais e as coligações.
MESMO TETO, PONTOS DE PARTIDA DIFERENTES — A eleição, portanto, apresenta um paradoxo.
Wellington, Pivetta, Natasha, Rafael Milas, Sargento Laudicério e Maurício Coelho poderão gastar no máximo os mesmos R$ 7,115 milhões no primeiro turno.
Mas chegam a esse limite apoiados por estruturas profundamente diferentes.
O PL de Wellington controla a maior parcela do Fundo Eleitoral do país.
Pivetta reúne o Republicanos à poderosa Federação União Progressista e disputa a reeleição no exercício do Governo.
Natasha possui uma aliança formada por PSD e partidos relevantes da esquerda e centro-esquerda, mas ainda busca transformar essa estrutura partidária em conhecimento eleitoral.
Na outra ponta, Missão, Agir e Mobiliza dispõem nacionalmente de apenas R$ 3,3 milhões cada do Fundo Eleitoral — menos da metade do próprio limite que uma única candidatura a governador pode gastar em Mato Grosso.
Isso não determina o resultado da eleição. Dinheiro, televisão, prefeitos e partidos aumentam a capacidade de uma candidatura chegar ao eleitor, mas não transformam automaticamente estrutura em voto.
A partir do início oficial da campanha, a disputa mostrará quanto essas diferenças de recursos e capilaridade conseguem efetivamente alterar a preferência do eleitor mato-grossense.







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