Da abolição à verticalização - caminhos da educação profissional e superior para superação das mazelas da escravidão
Allan Kardec Pinto Acosta Benitez A abolição da escravatura no Brasil, formalizada em 13 de maio de 1888 com a promulgação da Lei Áurea (138 anos), constitui um dos marcos mais emblemáticos da história nacional. No entanto, apesar de seu significado jurídico, o fim do regime escravocrata não foi acompanhado por políticas públicas capazes de garantir a inclusão social, econômica e educacional da população negra libertada. Ao contrário, o país ingressou em um ciclo persistente de desigualdades, no qual milhões de pessoas foram lançadas à própria sorte, sem acesso à terra, à educação ou a oportunidades dignas de trabalho, impactando profundamente a formação das relações laborais e da mão de obra qualificada.
A transição do trabalho escravo para o trabalho livre e remunerado ocorreu de forma lenta e desigual. Sem medidas de reparação ou integração, a população negra passou a ocupar, majoritariamente, os postos mais precarizados da economia, enquanto políticas de incentivo à imigração europeia reforçaram a exclusão racial no acesso às melhores oportunidades de emprego e renda. Décadas depois, a institucionalização de direitos trabalhistas por meio da Consolidação das Leis do Trabalho, durante o governo de Getúlio Vargas, representou um avanço relevante, mas insuficiente para romper com as bases estruturais da desigualdade. A informalidade, a baixa remuneração e a limitação de acesso à qualificação profissional e educação de qualidade continuaram a marcar o mercado de trabalho brasileiro.
Nesse cenário, a formação de mão de obra qualificada sempre esteve profundamente associada às desigualdades sociais. Durante décadas, o acesso à educação técnica e superior foi restrito, contribuindo para a reprodução de desigualdades históricas, empurrando os negros à pobreza. Ainda que políticas de ações afirmativas recentes tenham ampliado o acesso, persistem desafios relacionados à permanência, à qualidade do ensino e à articulação entre formação educacional e demandas do mundo do trabalho.
No estado de Mato Grosso, essas questões assumem características específicas. A economia regional, historicamente baseada no agronegócio e na expansão territorial. As transformações contemporâneas foram impulsionadas pela agroindústria, pela inovação tecnológica, pela indústria 4.0, pela bioeconomia e energia renovável, pela organização do ecossistema de inovação e a eminente inauguração do Parque Tecnológico de Mato Grosso e pela crescente complexidade dos processos produtivos, têm exigido trabalhadores cada vez mais um profissional qualificado.
Diante disso, a organização de um comitê gestor ofertante de cursos profissionalizantes, com instituições formadoras como IFMT, SENAI, SENAC e ETECs, bem como algumas outras instituições privadas, torna-se uma estratégia central para promover inclusão produtiva e desenvolvimento regional, um movimento talvez inédito no país.
Em Mato Grosso, esse movimento ganha força por meio da oferta intercomplementar entre a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação de Mato Grosso e a Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso, que possibilita integrar o ensino médio à formação profissional e tecnológica, ampliando o acesso dos estudantes à qualificação profissional ainda durante sua trajetória escolar. Essa integração fortalece a permanência na escola, reduz a evasão e aproxima a educação das realidades produtivas locais.
Entretanto, para que esse processo seja efetivamente transformador, é fundamental avançar também na verticalização da formação, garantindo a continuidade dos estudos para além do ensino técnico. Nesse sentido, o papel da Universidade do Estado de Mato Grosso é estratégico. Assim como é estratégico o Fortalecimento da FAPEMAT, a Fundação de Amparo a Pesquisa de Mato Grosso que já tem estratégias definidas que inclui estudantes da educação básica até os principais pesquisadores das nossas universidades, introduzir o aluno nas possibilidades de financiamento público para pesquisa, extensão e inovação constrói pontes para futuros projetos estratégicos de desenvolvimento econômico e social do nosso estado.
A articulação entre a educação básica, o ensino técnico e o ensino superior permite construir trajetórias formativas completas, nas quais o estudante pode ingressar em cursos técnicos e, posteriormente, acessar a um curso superior tecnólogo e outras etapas da formação acadêmica e profissional.
A verticalização com a UNEMAT amplia as possibilidades de mobilidade social e fortalece a formação de profissionais altamente qualificados, capazes de atuar em setores estratégicos do desenvolvimento regional. Onde o aluno que finalizar o ensino médio profissional terá aproveitamento das competências e habilidades construídas durante seu curso e diminuirá o tempo de permanência no ensino superior, sem perder a qualidade do processo ensino aprendizagem. Além disso, contribui para a interiorização do ensino técnico e superior, uma vez que a UNEMAT e as ETECs estão em várias regiões do nosso estado. Ao dialogar com as vocações territoriais, como agricultura, pecuária, saúde, infraestrutura, logística, construção civil, comércio, bioeconomia, dentre outras. Essa integração fortalece um modelo de desenvolvimento que valoriza tanto a inovação quanto os saberes locais.
Assim, a construção de um sistema educacional público estadual será finalmente articulado, pois integrará de fato SECITECI, SEDUC e a UNEMAT, representando um caminho concreto para enfrentar desigualdades históricas e promover inclusão. Trata-se de uma estratégia que vai além da formação de mão de obra em um país de histórico escravagista, constitui-se como política estruturante de desenvolvimento social, econômico e educacional.
Ao revisitar o processo de abolição da escravatura, torna-se evidente que a liberdade formal não foi acompanhada de igualdade de oportunidades.
As marcas desse processo ainda se refletem nas desigualdades do mundo do trabalho e no acesso à qualificação. Nesse contexto, investir na universalização do ensino técnico e na sua articulação com o ensino superior não é apenas uma resposta às demandas do presente, mas uma ação necessária para reparar desigualdades históricas e construir um futuro mais justo, inclusivo e sustentável.
(*) ALLAN KARDEC PINTO ACOSTA BENITEZ é professor, servidor público, mestre e doutor pela UFMT, membro da Academia Mato-grossense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso







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