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A juventude que nos devolvem

Como é bom receber a visitas dos netos! Tudo parece reflorir


A juventude que nos devolvem Gabriel Novis Neves

Os netos têm um dom raro: devolvem ao coração dos avós uma espécie de juventude emprestada.

Não rejuvenescem o corpo, nem apagam os anos, mas trazem de volta a curiosidade, o riso fácil e a surpresa diante das pequenas coisas. Ao lado deles a vida parece menos pesada. 

Chegam com seus modos novos, suas palavras apressadas, suas descobertas, e, sem perceber, reabrem em nós janelas que julgávamos fechadas pelo tempo. 

Como é bom receber a visitas dos netos! Tudo parece reflorir.

Eles nos aproximam de um mundo que já não é o nosso, mas que também nos pertence um pouco pelo afeto. 

Nas reuniões semanais da família, tenho a oportunidade de sentir isso de perto. 

Ouço suas conversas e, muitas vezes, não consigo acreditar em certas palavras, costumes e novidades. 

Ao mesmo tempo, alguma coisa me transporta aos meus próprios tempos de juventude. Lembranças que pareciam adormecidas voltam com força ao pensamento. 

Costumes antigos ressurgem como num toque de mágica. O corpo permanece o mesmo, marcado pelos anos, mas o olhar sobre a vida se modifica. Fica mais leve. 

Os netos não são cópias dos pais, muito menos dos avós. Têm sua própria maneira de amar, de falar, de vestir, de rir e de compreender o mundo. 

E é bom que seja assim. O tempo não volta para trás. 

O mundo, com suas conquistas e mudanças, vai atropelando hábitos antigos e abrindo caminhos novos. 

Os netos não são cópias dos pais, muito menos dos avós. Têm sua própria maneira de amar, de falar, de vestir, de rir e de compreender o mundo

Nem todas as mudanças são boas. Algumas assustam. Outras encantam. Mas a vida sempre foi feita dessa mistura entre perdas e descobertas. 

Quando os netos se tornam pais, os avós recebem uma alegria ainda mais profunda. É como se a família ganhasse nova luz. 

Os bisnetos chegam pequenos, frágeis e sorridentes, trazendo para dentro da casa uma esperança que não envelhece. 

Num tempo em que muitos casais evitam ter filhos e as famílias numerosas vão ficando raras, reunir várias gerações à mesma mesa é quase um privilégio. 

Antigamente, essas famílias apareciam em velhos retratos, todos juntos, sérios ou sorridentes, guardados em álbuns de capa dura. 

Hoje, quando vejo filhos, netos e bisnetos reunidos, sinto que ainda faço parte dessa fotografia viva. 

E agradeço. Porque a juventude que os netos.

GABRIEL NOVIS NEVES é médico em Cuiabá e fundador da UFMT.

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