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'Onde o Estado não entra, as facções dominam': MT fecha 2025 com facções criminosas em 65% dos municípios

Para a professora de criminologia da UFMT, Vládia Soares, o cenário é resultado direto da fragilidade do poder público

Eloany Nascimento - Leiagora
'Onde o Estado não entra, as facções dominam': MT fecha 2025 com facções criminosas em 65% dos municípios

Marcado por guerras entre grupos criminosos, execuções, tribunais do crime e disputas sangrentas por território, o ano de 2025 consolidou o avanço das facções criminosas em Mato Grosso.

Conhecido nacionalmente pela força do agronegócio, o estado passou a figurar também como um dos principais eixos da criminalidade organizada no país, com atuação de facções em cerca de 65% dos municípios.

Para a professora de Direito Penal, Criminologia e Processo Penal da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Vládia Soares, o cenário é resultado direto da fragilidade do poder público. “Onde o Estado não entra, as facções acabam dominando”, afirma.

A expansão ocorre em um contexto estratégico para o tráfico de drogas. Mato Grosso faz fronteira com países produtores, como Bolívia e Peru, e está no centro de importantes rotas de escoamento rumo ao Sudeste e ao mercado internacional. Essa posição geográfica transformou o estado em alvo prioritário de organizações criminosas em busca de rotas mais lucrativas e menos fiscalizadas.

Segundo Vládia Soares, o avanço das facções não é um fenômeno isolado, mas parte de um padrão observado em grande parte do Brasil, inicialmente marcado pela disputa entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).

Eu não vejo facções mais como um fenômeno irreversível. Eu vejo como um fenômeno que está acontecendo na maioria dos estados do Brasil, com essa divisão inicial entre PCC e Comando Vermelho. A maioria dos 92 municípios que têm facções criminosas são comandadas pelo CV.

De acordo com a especialista, o Comando Vermelho exerce domínio hegemônico sobre a maior parte do território mato-grossense, embora outros grupos tenham ampliado sua presença nos últimos anos.

Mas nós temos uma entrada do que eles chamam de B-40 e nós temos uma entrada da Tropa do Castelar também, todos com presença aqui no estado, influenciando o tráfico e os crimes correlatos, e o PCC começou a vir pra cá também. Então, o que eu posso te falar é que em 78 municípios é do domínio hegemônico do Comando Vermelho. Em 14 municípios a gente tem uma disputa aberta entre duas ou mais organizações criminosas.”

Além do tráfico de drogas, as facções passaram a atuar em outras atividades ilegais, como o garimpo clandestino, sobretudo em áreas indígenas e regiões de fronteira. Nesses locais, os grupos cobram taxas, financiam a extração ilegal de recursos naturais e impõem regras próprias, ampliando os conflitos e a violência.

Para Vládia Soares, a ocupação desses espaços está diretamente relacionada à ausência do Estado, especialmente em áreas socialmente vulneráveis.

Eu tenho a convicção de que a organização criminosa entra e faz o seu papel, às vezes de guardiã de um estabelecimento, às vezes de guardiã de uma casa, ou mesmo ela vai cooptar pessoas dessa casa, porque o Estado é frágil. Onde o Estado não entra, as facções acabam dominando.”

Essa ausência, segundo a professora, é mais evidente nas periferias urbanas e em bairros com baixos indicadores sociais.

Onde o Estado não entra? Nos bairros mais vulneráveis. Então a gente tem, em Cuiabá e em Mato Grosso, bairros que são vulneráveis e que o Estado simplesmente abandona esses bairros, com poucas escolas, com redes de saúde muito precárias, e aí a facção toma conta como um poder paralelo.”

As disputas entre organizações criminosas têm elevado os índices de violência letal em cidades estratégicas para o tráfico. Municípios situados nas rotas de escoamento concentram parte significativa dos confrontos, com crimes marcados por extrema brutalidade.

Entre os casos mais emblemáticos está Cáceres, na região de fronteira com a Bolívia, que em 2025 foi palco de assassinatos com decapitações e outros requintes de crueldade atribuídos à guerra entre facções. Em Sorriso, no norte do estado, episódios de violência envolvendo faccionados também se repetiram ao longo do ano, mantendo a cidade entre os focos de criminalidade organizada.

Até o momento, o governo estadual não divulgou um balanço oficial com o número total de mortes relacionadas às disputas entre facções em 2025. A especialista alertou ainda que sem políticas públicas consistentes de presença do Estado, prevenção social e repressão qualificada, a tendência é de manutenção, ou até agravamento, do domínio das organizações criminosas em Mato Grosso.

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