PF identifica viagens com reservas compartilhadas entre lobista e filho de Lula em investigação sobre fraudes no INSS
Deslocamentos nacionais e internacionais com os mesmos códigos de reserva aparecem em nova fase da operação Sem Desconto; empresária é alvo de medidas cautelares, e Fábio Luís não é investigado
A Polícia Federal identificou ao menos seis viagens realizadas pela empresária e lobista Roberta Moreira Luchsinger e por Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em que as reservas aéreas foram registradas sob os mesmos códigos localizadores. Os deslocamentos incluem um trecho internacional para Portugal, em 13 de junho de 2024, e cinco voos domésticos realizados entre abril e junho de 2025.
As informações constam na nova fase da operação Sem Desconto, deflagrada na quinta-feira, 20 de dezembro de 2025, que apura esquemas de descontos irregulares aplicados sobre aposentadorias e pensões do INSS. Roberta foi alvo de busca e apreensão. Fábio Luís não sofreu medidas cautelares e não é investigado formalmente.
Por determinação do Supremo Tribunal Federal, Roberta passou a usar tornozeleira eletrônica, entregou o passaporte, está proibida de deixar o país e deve manter distância de outros investigados. As medidas foram solicitadas pela PF com base em indícios reunidos ao longo do inquérito.
Entre as reservas identificadas estão os trechos Guarulhos–Lisboa, em voo da TAP, em junho de 2024, e voos entre Congonhas, Brasília, Guarulhos e São Luís ao longo de 2025, operados pela Latam. Segundo a PF, na maioria dos registros constam apenas os nomes de Roberta e Fábio Luís. No deslocamento para São Luís, aparecem seis passageiros no mesmo localizador, incluindo a esposa de Lulinha, Renata de Abreu Moreira, dois filhos do casal e uma filha de Roberta.
A investigação também reuniu informações sobre relações pessoais e acessos ao Palácio do Planalto. Roberta é herdeira de Peter Paul Arnold Luchsinger, ex-acionista do Credit Suisse, e ex-esposa do ex-delegado Protógenes Queiroz. Registros obtidos via Lei de Acesso à Informação indicam que ela esteve no Planalto em 17 e 18 de abril de 2024. Já Fábio Luís compareceu à sede do Executivo em 17 e 31 de janeiro e em 7 de março do mesmo ano.
Nas redes sociais, Roberta se declara amiga íntima de Renata, esposa de Fábio Luís, a quem chama de “irmã de alma”. As duas possuem tatuagens idênticas, elemento citado pela PF como indício de vínculo pessoal.
Outro eixo do inquérito envolve movimentações financeiras atribuídas a Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS. Relatórios do Coaf apontam pagamentos que somam R$ 1,5 milhão, divididos em cinco repasses de R$ 300 mil, destinados à empresa RL Consultoria e Intermediações Ltda., de propriedade de Roberta Luchsinger.
Em mensagens anexadas aos autos, um funcionário questiona o destino de uma nova transferência e recebe a resposta “o filho do rapaz”. O comprovante seguinte indica a empresa de Roberta como beneficiária. Para a PF, a atuação descrita teria sido essencial para a ocultação de patrimônio, movimentação de valores e gestão de estruturas usadas como instrumentos de lavagem de capitais.
Em nota por telefone, Roberta informou que não comentaria diretamente o caso e orientou que a imprensa procurasse seu advogado. O defensor Bruno Salles afirmou que há informações descontextualizadas que serão esclarecidas no momento oportuno. A defesa sustenta que a empresária jamais teve relação com descontos do INSS e que atua apenas na prospecção e intermediação de negócios. Marco Aurélio de Carvalho, amigo de Fábio Luís, declarou que ele não constituiu advogado por não ser alvo da investigação.
Relatórios internos da PF indicam divergências sobre os próximos passos do inquérito. Enquanto uma ala defende aprofundar a apuração sobre eventual envolvimento de Fábio Luís, outra considera a medida precipitada, por falta de base robusta.
Até o momento, prevalece o entendimento de que o filho do presidente não está diretamente envolvido nas condutas relacionadas aos descontos associativos fraudulentos.








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