12 de Julho de 2024

OPINIÃO Sábado, 17 de Fevereiro de 2024, 11:47 - A | A

‘UM BRASIL COCAR’

Anna maria Ribieor

 Anna Maria Ribeiro Costa

Ya temi xoa, aê-êa
Ya temi xoa, aê-êa
Meu Salgueiro é a flecha pelo povo da floresta
Pois a chance que nos resta é um Brasil cocar

Poucos dias antes da homenagem ao povo indígena Yanomami prestada pela Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro no desfile da Marques de Sapucaí com o samba-enredo Hutukara, as mídias televisiva e digital informaram que três garimpeiros morreram em Roraima, no interior da Terra Indígena Yanomami, em consequência de ataques de indígenas.

Há décadas, sabe-se que o território de ocupação Yanomami é alvo de invasões que objetivam a extração ilegal de ouro e cassiterita, este conhecido como ‘ouro negro’, devido ao seu alto valor comercial. Intensificado nos últimos anos, o garimpo ilegal impacta diretamente o modo de vida dos povos originários, isto porque a invasão tem como consequências a destruição do meio ambiente (54% da Terra Indígena Yanomami encontra-se devastada), os conflitos armados, a poluição dos rios devido ao uso do mercúrio, a disseminação de doenças, a desnutrição e as violências de outras naturezas.

indio livro

 

Mas, o edaz garimpo não se alimenta somente de metais preciosos. A constante permanência em território Yanomami de milhares de garimpeiros, chamados de napë warëri pë, ‘espíritos queixadas forasteiros’ ou ‘comedores de terra’, tem afetado seus sonhos. As vozes noturnas oriundas da boca da ‘terra-floresta’ são sufocadas pelas vozes das dragas que removem o solo ancestral Yanomami, a vociferar dia e noite, impedindo-os de sonhar. Em ‘O desejo dos outros: uma etnografia dos sonhos Yanomami’ (2022), Hanna Limulja desvela a potência onírica ao demonstrar o papel dominante dos sonhos em todos os aspectos da vida indígena. Um instrumento para impedir que novamente o céu desabe sobre a terra, matando todos os seres vivos.

Kopenawa acredita que o samba-enredo Hutukara (que em sua língua significa ‘terra-floresta surgida após a queda do primeiro céu nos tempos ancestrais’) pode ‘fazer o homem branco, que mora na cidade, abrir os olhos para enxergar nossa imagem, a nossa alma, nossa alma de indígena, alma de pessoa, alma do homem da floresta’. O grande líder confiou no samba-enredo salgueirense Hutukara como um instrumento de luta para reunir forças à manutenção da integridade física e espiritual do povo Yanomami.

No quesito ‘samba-enredo’ a Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, composição coletiva de Pedrinho da Flor, Marcelo Motta, Arlindinho Cruz, Renato Galante, Dudu Nobre, Leonardo Gallo, Ramon Via 13 e Ralfe Ribeiro recebeu a nota 10.  ‘A chance que nos resta é um Brasil cocar’, bradou um de seus versos. ‘Um Brasil cocar’ consiste em uma possibilidade de os não indígenas conjugarem cotidianamente o verbo sulear, uma criação do físico brasileiro Marcio d’Olne Campos. E, sem dúvida, ‘a chance que nos resta é um Brasil’ cônscio da pluralidade e diversidade de seus filhos. Um caminho para que o Brasil receba nota 10 no quesito ‘harmonia’.

Na foto: Joseca Yanomami, Roraima, 1971 (MASP).

Anna Maria Ribeiro Costa é doutora em História, etnógrafa e filatelista. Semanalmente escreve no Circuito Mato Grosso, na coluna Terra Brasilis.



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