Professora de MT transforma traumas da infância em livro após décadas de silêncio
Janete Carvalho encontrou na escrita e na terapia uma forma de reconstruir a própria história e agora espera ajudar outras vítimas de violência.
Aos 65 anos, a pedagoga e professora Janete Carvalho transforma uma história de infância marcada por abusos sexuais, violência e silenciamento em uma obra literária que busca levar esperança a outras vítimas. Em seu primeiro livro “Entre o Medo e a Palavra” ela reconstrói lembranças dolorosas e mostra como a escrita, aliada à psicanálise, se tornou parte de seu processo de reconstrução pessoal.
A autora está em Cuiabá para o lançamento da obra, marcado para esta quinta-feira (16), às 19h, na Cervejaria Cuiaverá. O encontro terá bate-papo com a autora e noite de autógrafos.
Em entrevista ao Primeira Página, ela conta que foi vítima de abusos cometidos pelo próprio pai dos 8 aos 15 anos. Durante décadas, encontrou na escrita uma maneira de expressar sentimentos que não conseguia compartilhar com outras pessoas.
O que começou como uma forma de desabafo, no entanto, levou anos para ganhar a forma de um romance. “Eu procurei escrever como uma forma de me curar, de tratar o trauma que eu tinha”, relata.
Nascida em Goiás, Janete passou parte da infância e adolescência em cidades do interior do estado, inclusive na zona rural. Mudou-se para Goiânia para cursar a faculdade, onde se casou com um mato-grossense.
Em 1986, chegou a Rondonópolis, onde ingressou na rede estadual de ensino por concurso público e construiu a carreira como professora. Em 2007, mudou-se para Cuiabá, onde também construiu sua vida.
Foi ao longo dessa trajetória que a escrita se tornou uma companhia silenciosa. Dos 29 aos 48 anos, Janete escrevia sempre que era tomada por sentimentos intensos, como tristeza e raiva.
Os textos não eram exatamente um diário, mas uma maneira de colocar para fora aquilo que carregava. Na época, porém, ela ainda não fazia terapia. Em determinado momento, decidiu queimar tudo o que havia escrito.
Do sofrimento à coragem de contar
Anos depois, já adulta e enfrentando problemas de saúde relacionados à exaustão e ao sofrimento que ainda carregava, Janete percebeu que precisava buscar ajuda profissional. “Eu adoeci. Nunca a gente supera o trauma sozinho. A gente precisa de ajuda”, afirma.
Foi durante o processo de psicanálise que a escrita ganhou outro significado. Incentivada pelo analista, Janete passou a registrar lembranças da infância e reflexões sobre as sessões terapêuticas. O trabalho durou cinco anos e, aos poucos, deixou de ser apenas um exercício pessoal para se transformar em uma obra literária.

Compartilhar a própria história não foi uma decisão simples. Janete conta que sentiu vergonha ao pensar em tornar públicas experiências tão íntimas e dolorosas.
O receio foi sendo trabalhado durante a terapia, até que ela passou a enxergar a possibilidade de transformar sua trajetória em uma forma de acolhimento para outras pessoas.
A autora percebeu que sua história não era isolada. Outras meninas, mulheres e também meninos passam por situações semelhantes, muitas vezes sem conseguir falar sobre o que aconteceu. Foi essa compreensão que a motivou a publicar o livro.
“Se eu cheguei a esse ponto de ter essa coragem de me autoanalisar, de assumir esses meus traumas para mim mesma, de me resgatar como pessoa, eu podia ajudar outras pessoas”, afirma.
O abuso, o silêncio e a falta de proteção
Em ‘Entre o Medo e a Palavra‘, Janete também procura mostrar como situações de violência podem acontecer dentro de ambientes familiares complexos, nos quais a criança nem sempre encontra proteção ou se sente segura para contar o que está vivendo.
A forma como essas situações eram apresentadas dificultava que a criança compreendesse plenamente o que estava acontecendo. Ao mesmo tempo, o medo e a falta de confiança em encontrar apoio contribuíam para que ela permanecesse em silêncio.
Janete conta que só revelou os abusos à mãe aos 15 anos, depois que uma irmã também relatou ter sido vítima do pai. Foi a partir da situação vivida pela irmã que ela encontrou coragem para confirmar o que havia acontecido consigo.

A mãe acreditou nos relatos, segundo a autora, mas não tomou uma atitude capaz de interromper a violência. Ela procurou um padre, que a aconselhou a preservar a família, com argumentos relacionados ao perdão e à manutenção da unidade familiar. Os abusos continuaram.
Ao recordar essa experiência, Janete destaca como a ausência de proteção pode prolongar o sofrimento e dificultar que a vítima procure ajuda. Para ela, romper o silêncio depende também de encontrar pessoas dispostas a ouvir, acreditar e oferecer afeto.
A autora defende que crianças que sofrem violência precisam encontrar um adulto de confiança a quem possam recorrer, seja na família, seja na escola. Mais do que exigir que a vítima denuncie, ela considera fundamental garantir que essa pessoa não se sinta sozinha ou responsável pelo que aconteceu.
Ajudar vítimas a buscar esperança
Aos 65 anos, Janete considera que compartilhar a própria experiência também representa uma nova etapa de sua atuação social. A professora pretende utilizar o livro como ponto de partida para rodas de conversa e encontros em bairros, aproximando-se de pessoas que passaram por situações semelhantes.
Ela faz questão de destacar que a obra não promete uma solução simples para o sofrimento nem substitui o acompanhamento profissional. A intenção é mostrar que é possível reconstruir a vida e encontrar maneiras de conviver com as marcas deixadas pela violência.
“Eu digo que tive o privilégio de poder fazer terapia, o privilégio de ter criado coragem, de estar nesse estágio de agora, de poder dizer que estou com 65 anos e que ainda há tempo para viver melhor, com menos sofrimento, ou pelo menos para encarar melhor o sofrimento, ser mais feliz”, diz.
Para Janete, o livro é resultado de um processo cuidadoso de escolha das palavras e elaboração das memórias. Ao transformar experiências dolorosas em literatura, ela espera que outras vítimas encontrem na narrativa a possibilidade de reconhecer o próprio sofrimento, procurar apoio e compreender que a vida não precisa permanecer definida pela violência.
“A cada um que for ler, eu aconselho que leia devagar, no seu tempo. O tema é pesado, a linguagem é crua, mas posso garantir que, mesmo na dor, eu quis fazer que ele tivesse aspectos literários. É minha arte. A escrita é minha arte”, afirma.








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