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Do piano ao futebol: conheça a história de Zulmira Canavarros

A professora e artista desafiou regras sociais e se tornou uma das líderes importantes da história de MT

LARISSA AZEVEDO - Midia News
Do piano ao futebol: conheça a história de Zulmira Canavarros

Nascida em 1895, Zulmira d’Andrade Canavarros construiu uma trajetória marcada pelo pioneirismo em diferentes áreas e deixou um legado que permanece vivo em Cuiabá até os dias atuais. 

Em uma época em que a participação feminina nos espaços públicos, culturais e esportivos enfrentava profundas limitações, ela rompeu barreiras e se tornou uma personagem de destaque na história de Mato Grosso. 

Ela possuía a genialidade, espontaneidade, criatividade e versatilidade

Ao longo da vida, Zulmira transitou pelas salas de aula, pelos palcos de teatro e pela música. Pianista e compositora, também organizou eventos culturais, contribuiu para ampliar os espaços de divulgação da música cuiabana e participou da fundação da primeira rádio de Mato Grosso. 

Sua atuação também chegou ao esporte. Zulmira entrou para a história do futebol mato-grossense ao se tornar a primeira mulher a fundar e presidir um clube no Estado. 

Segundo levantamento da historiadora Neila Barreto, Zulmira foi uma mulher de vanguarda, cuja disciplina e versatilidade fizeram com que se destacasse na primeira metade do século XX, período em que a sociedade ainda era fortemente marcada pelo patriarcalismo. 

Conforme a historiadora, Zulmira atuou como professora, pianista, compositora, dramaturga, promotora cultural e empreendedora. O pioneirismo na organização e promoção de atividades culturais e esportivas ajudou a transformá-la em um ícone da Capital. 

É considerada uma mulher de vanguarda e disciplinada, bem como um gênio musical em Mato Grosso da primeira metade do século XX. Ela possuía a genialidade, espontaneidade, criatividade e versatilidade para musicar versos, comédias e teatro de revistas”, afirmou Neila.

 

Entre o piano e os palcos


Antes mesmo de se tornar um dos nomes mais lembrados da história do esporte cuiabano, Zulmira já construía uma trajetória ligada às artes. 

De acordo com Neila Barreto, por volta de 1925, ela e o teatrólogo Franklin Cassiano montaram diversas peças teatrais em Cuiabá. 

A atuação ganhou importância em um período em que, embora a interpretação e as artes cênicas contassem com artistas mato-grossenses, muitas das peças encenadas eram produzidas fora do Estado. Zulmira ajudou, portanto, a ocupar um espaço cultural que ainda estava em construção. 

Ao longo da vida, dirigiu 18 peças na Capital, entre elas “Branca de Neve”, “Cala a Boca, Etelvina” e “A Noiva e a Égua”. 

A artista também deixou mais de 35 composições musicais. Nos tempos do cinema mudo, atuava como pianista do Cine Parisiense e compunha músicas e hinos para solenidades. 

Foi ainda ao lado da pianista Dunga Rodrigues que começou a desenvolver o rasqueado no piano solo, levando a identidade regional para um instrumento que se tornaria mais um dos meios de expressão de sua produção artística. 

Zulmira também organizava eventos, reunia artistas e criava oportunidades para que a produção cultural local ganhasse público. 

Em fevereiro de 1944, o jornal O Estado de Mato Grosso registrou a realização do Concurso de Músicas Carnavalescas, organizado por Zulmira e patrocinado pelo Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda (DEIP) e pelo próprio jornal. 

A reportagem da época atribuiu a ela papel central no sucesso do evento, que reuniu a juventude cuiabana em torno de ritmos e melodias locais. O jornal chegou a definir Zulmira como uma mulher de “força de vontade ilimitada e sublime inspiração” e afirmou que ela estava criando “uma escola nova na música regional mato-grossense”. 

Ao final do concurso, a professora foi muito felicitada e, para o jornal, aquele era o reconhecimento de uma mulher que fazia sua música ecoar por Cuiabá. 

Temos a nossa música que é tão boa quanto as outras”, registrou a publicação ao celebrar o resultado do certame e o trabalho da organizadora. 

Além desse evento, Zulmira é citada em inúmeras outras reportagens dos jornais que circulavam em sua época sobre eventos culturais, consultadas pelo MidiaNews no Arquivo Público de Mato Grosso. 

Um clube para mulheres 

Segundo Neila Barreto, em 1928, Zulmira liderou um grupo de moças cuiabanas na criação do Clube Esportivo Feminino, voltado à recreação, ao esporte e à cultura. 

A iniciativa nasceu em uma sociedade patriarcal e excludente e se transformou em um polo cultural e esportivo da elite cuiabana. 

Os registros da época mostram a presença de Zulmira diretamente ligada às atividades esportivas. Em 1928, o jornal O Matto-Grosso noticiou a fundação do Club Feminino e publicou a composição de sua diretoria, na qual Zulmira Canavarros aparece como “Directora Sportiva”. 

A posse ocorreu no dia 3, pela manhã, e o primeiro dia de atividades foi encerrado com um baile oferecido pelas associadas à sociedade cuiabana.

O jornal descreveu a festa como “a chave de ouro” que marcou o surgimento do clube na Capital. 

Para Neila, o Clube Feminino ganhou importância justamente por abrir espaço para as mulheres em atividades que não estavam restritas à vida doméstica. 

Com o tempo, homens e mulheres passaram a participar juntos de atividades esportivas, cenário que ajudaria a motivar a criação de outro clube que se tornaria um dos maiores símbolos do futebol de Mato Grosso. 

O Mixto Esporte Clube 

Em maio de 1934, um grupo de sete pessoas se reuniu em Cuiabá para fundar um novo clube. 

Participaram do encontro Zulmira Canavarros, seu marido, Danglars Canavarros, Naly Hugueney de Siqueira, Carlos Hugueney de Siqueira, Dácio Gomes Pulchério, Raul Santos Costa e Delfino Nonato de Faria. 

Na noite de 20 de maio de 1934, o encontro resultou na criação do Mixto Esporte Clube. Na ocasião, foi eleita a primeira diretoria da agremiação, tendo Zulmira Canavarros como presidente. 

O feito a tornou a primeira mulher em Mato Grosso a fundar e presidir um clube de futebol, conforme Neila Barreto. 

A criação do Mixto carregava uma ideia diretamente relacionada à origem do clube. O nome representava a mistura de pessoas diferentes reunidas em torno de uma mesma proposta. 


Várias opções de nomes surgiram, mas o consenso era com o nome Mixto. Essa palavra tem o significado de mistura de coisas diferentes, ou opostas. O nome representava perfeitamente a ideologia do novo clube, um clube formado sem preconceitos, por mulheres e homens”, afirmou Neila Barreto. 

Além de presidir o clube, Zulmira também foi responsável pela composição de seu hino oficial, criando ao piano a música e a letra de “O Mixto 'Sport Club' agora se apresenta”, com a colaboração do acadêmico Ulisses Cuiabano. 

A obra atravessou gerações e permanece ligada à identidade do clube e de sua torcida. 

Em 1942, O Estado de Mato Grosso publicou uma reportagem sobre a posse de uma nova diretoria do clube. Zulmira aparecia entre os presidentes de honra do alvinegro, demonstrando que sua relação com a instituição que ajudou a fundar permanecia viva anos após sua criação. 

A matéria também mostra o ambiente social e esportivo que havia se formado em torno do clube, com setores voltados ao futebol, tênis, basquete, vôlei e atividades recreativas. 

O Clube Feminino e o Mixto, mais tarde, seguiram caminhos diferentes. O primeiro passou a se concentrar no lazer e nas atividades culturais, enquanto o segundo se voltou ao esporte. 

Ambos, porém, carregam parte da trajetória de Zulmira e de sua disposição para criar espaços que, até então, praticamente não existiam.

 

A pioneira do rádio

Todos os empreendimentos que interessassem ao progresso da nossa terra, tinham a decidida e entusiástica cooperação da distinta professora Zulmira

Em 1939, ela foi uma das fundadoras da rádio Voz d’Oeste, apontada por Neila Barreto como a primeira emissora de Mato Grosso. A rádio ajudava a conectar o estado ao restante do país e também abriu espaço para programas musicais. 

Ao lado de Ivo Arruda, Décio Gama e Juvenílio de Freitas, Zulmira fazia parte desse ambiente que levava música aos ouvintes mato-grossenses. 

O último adeus

 Zulmira Canavarros morreu em 14 de setembro de 1961, aos 65 anos, após enfrentar uma longa enfermidade.

Dias depois, O Estado de Mato Grosso publicou uma homenagem à professora e registrou a dimensão da despedida. 

Segundo o jornal, a casa onde ela vivia não foi suficiente para receber o grande número de pessoas que foram prestar o último adeus. O enterro, conforme a publicação, reuniu pessoas de diferentes classes sociais e integrantes do magistério. 

Todos os empreendimentos que interessassem ao progresso da nossa terra, tinham a decidida e entusiástica cooperação da distinta professora Zulmira, que grangeou, por esse modo, a estima e a admiração de todos”, disse trecho da matéria.  

No magistério, a que se entregou de corpo e alma, desde a sua mocidade, deixa um vasto círculo de amizades, captadas no seu ameno convívio e entre os seus numerosos alunos o sentimento de profunda e imorredoura saudade”, acrescentou outro.  

Mais de seis décadas depois de sua morte, o nome de Zulmira permanece espalhado por Cuiabá. 

Uma rua leva seu nome em frente ao Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT). Ela também dá nome ao Teatro do Cerrado Zulmira Canavarros, localizado na Assembleia Legislativa, inaugurado em 2014. 

Deixa um vasto círculo de amizades, captadas no seu ameno convívio e entre os seus numerosos alunos o sentimento de profunda e imorredoura saudade

São homenagens que reconhecem os feitos de Zulmira, que não ficou apenas em um palco, em uma sala de aula ou diante de um piano. Ela ajudou a criar instituições, abriu caminhos e ocupou espaços para o desenvolvimento cultural de Cuiabá. 

No futebol, colocou uma mulher na presidência de um clube. Na cultura, ajudou a criar palcos e oportunidades. Na música, valorizou ritmos e artistas locais. Na educação, marcou gerações de alunos. No rádio, participou de uma experiência pioneira para Mato Grosso. 

Zulmira Canavarros fez da própria trajetória uma forma de desafiar o seu tempo, e a sua história atravessou o século XX e continua presente na cidade.  

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