Adolescente de Cuiabá escreve livro durante luta da mãe contra o câncer e ganha destaque nacional
Adolescente de 17 anos, moradora do Bairro Pedra 90, já teve poemas publicados, foi selecionada pela Fiocruz e ficou entre os dez melhores do país em um prêmio literário.
Flávia Eduarda Guimarães Pinheiro Uma adolescente da periferia de Cuiabá encontrou na literatura uma forma de enfrentar um dos momentos mais difíceis da vida e acabou conquistando reconhecimento nacional.
Aos 17 anos, Flávia Eduarda Guimarães Pinheiro transformou em versos a luta da mãe contra o câncer do colo do útero e viu seus textos ultrapassarem os limites de Mato Grosso.
Tudo começou quando a mãe, Edenildes Guimarães Dias, recebeu o diagnóstico da doença. Sem saber como lidar com o medo e a angústia, a estudante encontrou na escrita uma maneira de expressar os sentimentos e, ao mesmo tempo, transmitir esperança durante o tratamento.
“Eu não queria que aquilo acontecesse com a minha mãe. Ela é uma pessoa tão generosa, tão honesta. Quando fui acompanhá-la ao hospital, ela estava sorrindo. Não feliz com a notícia, mas feliz de viver. Foi aí que pensei: vou escrever um livro para expressar tudo isso”, conta Flávia.
Dessa experiência nasceu ‘Sonhos de Flora‘, um conto infantil que retrata uma menina que enfrenta o câncer sem perder a alegria de viver. O livro ainda aguarda uma oportunidade para ser publicado, mas parte da sensibilidade da autora já ganhou espaço em coletâneas literárias nacionais.
O poema ‘Quando o Sol Retorna‘, inspirado na força da mãe durante o tratamento, foi selecionado para integrar uma coletânea publicada por uma editora de alcance nacional.
Ver a filha transformar a dor em palavras emocionou Edenildes. “Quando ela mostrou o poema, fiquei muito emocionada. Ela colocou para fora tudo o que estava sentindo. Mesmo em meio às dificuldades, conseguimos mostrar que ainda havia esperança. Isso foi muito importante para nós”, afirma.
Escrita que transforma
A trajetória de Flávia também evidencia a importância da escrita em uma época marcada pelo predomínio das telas. Muito além da redação do Enem, escrever ajuda a organizar o pensamento, ampliar o vocabulário, desenvolver a criatividade e fortalecer a capacidade de comunicação.
É justamente esse objetivo que reúne crianças e adolescentes em uma oficina de escrita criativa realizada durante as férias escolares em Cuiabá.
Para o professor de literatura Caio Ribeiro, escrever é uma habilidade que acompanha o estudante muito além da escola. “Quem escreve, lê. E quem lê o mundo consegue vencer a redação do Enem pelos repertórios que encontra nos livros e nas experiências. Além disso, há vestibulares que cobram diferentes gêneros textuais. Escrever não é seguir uma fórmula; é dar vida às palavras”, afirma.
A estudante Giovanna Gonçalves Lacerda, de 11 anos, decidiu aproveitar as férias para desenvolver essa habilidade. “Eu ainda tenho dificuldade para interpretar algumas coisas. Achei que a oficina poderia me ajudar em português e também porque gosto muito de ler”, conta.
Quem apresentou o curso à amiga foi Pietra Victor Ten Caten, de 12 anos. Ela já escreve o segundo livro e acredita que a literatura foi quem a escolheu. “Eu não acho que fui eu quem escolheu a escrita. Acho que ela me escolheu. Ler e escrever fazem a gente se sentir segura. É um espaço onde você pode descobrir mais sobre si mesmo”, afirma.
Reconhecimento
Sem imaginar onde a escrita poderia levá-la, Flávia começou a pesquisar concursos literários na internet e decidiu enviar seus poemas. Desde então, teve textos publicados em duas coletâneas nacionais, foi selecionada em um concurso promovido pela Fiocruz e ficou entre os dez melhores do país no Prêmio Fritz Teixeira de Salles, sendo a única representante de Mato Grosso na premiação.
O reconhecimento surpreendeu toda a família. “Nossa vida sempre foi muito simples. De repente tudo mudou. Hoje é raro ver jovens interessados em literatura. Em uma época em que muitos querem ser influenciadores, estudar também é um ato de resistência”, declara Edenildes.
Apesar do reconhecimento na literatura, Flávia pretende seguir outro caminho profissional. O sonho é cursar Engenharia Civil, sem abandonar a escrita, que se tornou parte da própria história.
“Eu nunca imaginei que chegaria tão longe. Comecei escrevendo só para mim. Depois veio um concurso, depois outro. Hoje, saber que posso inspirar jovens, adultos e idosos a lerem meus livros e conhecerem minha história é uma emoção que eu nunca vou conseguir colocar em palavras”, afirma Flávia.








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