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Tráfico e Mato Grosso

O tráfico entendeu a fronteira de Mato Grosso; o Estado brasileiro, não


Tráfico e Mato Grosso Frederico Murta

A apreensão de toneladas de cocaína em rodovias brasileiras virou rotina. O que pouca gente percebe é que boa parte dessa droga percorreu primeiro um caminho silencioso: entrou no país pelos estados da fronteira, como Mato Grosso. São cerca de 700 quilômetros de fronteira seca com a Bolívia, um dos maiores produtores de cocaína do mundo, em uma faixa marcada por áreas rurais, estradas vicinais, baixa densidade populacional e enorme dificuldade de fiscalização.

 

O primeiro passo é reconhecer que o modelo atual não entrega o resultado necessário

Esse dado deveria colocar Mato Grosso no centro da política nacional de segurança pública. Mas ocorre o contrário. O estado convive há anos com uma responsabilidade que, pela Constituição e pela lógica operacional, deveria ser prioridade da União.

 

As forças estaduais atuam com mérito e entregam resultados importantes. O ponto central, porém, é outro: nenhuma força estadual, por mais preparada e comprometida que seja, consegue sozinha vigiar centenas de quilômetros de fronteira aberta, com múltiplas rotas clandestinas e logística criminosa cada vez mais sofisticada.

 

O tráfico internacional já não depende apenas de grandes comboios. Opera com cargas pulverizadas, veículos comuns, pequenas remessas sucessivas, comunicação criptografada e rotas constantemente alteradas. Quando o Estado fecha uma estrada, o crime abre caminhos alternativos.

Outros países compreenderam isso há décadas. Os Estados Unidos, por exemplo, mantêm estruturas específicas de proteção de fronteiras, com carreira própria, tecnologia dedicada, inteligência integrada e missão exclusiva. Não é um modelo perfeito, mas parte da premissa correta: fronteira não pode ser tratada como tarefa secundária.

 

No Brasil, ainda insistimos no improviso. Policiais federais muitas vezes passam pela fronteira de forma temporária. Forças estaduais assumem lacunas federais. Órgãos diferentes produzem informações que nem sempre conversam entre si. Em muitos casos, operações dependem mais de relações pessoais entre agentes do que de um sistema institucionalizado de compartilhamento de dados.

 

Isso tem impacto nacional. Quando uma carga cruza Mato Grosso rumo ao Sudeste, Nordeste ou Sul, a ameaça deixa de ser regional. A droga que entra pela fronteira financia facções, compra armas, disputa territórios urbanos e alimenta homicídios a milhares de quilômetros dali.

 

Tratar esse problema como se fosse apenas de Mato Grosso é um erro estratégico. O estado está na linha de frente de uma guerra cujos efeitos recaem sobre todo o país.

 

O primeiro passo é reconhecer que o modelo atual não entrega o resultado necessário. Segurança pública exige honestidade diagnóstica. Se o sistema não responde à velocidade de adaptação do crime, ele precisa ser corrigido.

 

O segundo passo é construir uma política federal robusta de fronteiras. Isso passa por três medidas objetivas: uma força nacional especializada em fronteira terrestre, com efetivo permanente; centros integrados de inteligência com compartilhamento automático de dados entre União e estados; e investimento massivo em tecnologia de vigilância, como drones, sensores e monitoramento aéreo.

 

O terceiro passo é valorizar quem já atua no terreno. A experiência operacional local precisa orientar o planejamento nacional. Quem conhece Cáceres, Pontes e Lacerda, Porto Esperidião e as rotas rurais da região sabe que mapa de gabinete não substitui vivência prática.

 

Mato Grosso não é apenas potência do agro. Hoje, também é corredor estratégico do narcotráfico sul-americano. Ignorar isso interessa apenas às facções. Enquanto a fronteira continuar aberta e subprotegida, o restante do Brasil seguirá pagando a conta.

 

Frederico Murta é delegado da Polícia Civil de Mato Grosso.

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