Jornada de trabalho: mudanças exigem equilíbrio e planejamento
Wenceslau Junior A discussão sobre a jornada de trabalho no Brasil voltou ao centro do debate público, especialmente com propostas que sugerem a redução da carga semanal e o fim de modelos como a escala 6×1. Trata-se de um tema legítimo e relevante, sobretudo quando o objetivo é melhorar a qualidade de vida do trabalhador. No entanto, é fundamental que esse debate seja conduzido com responsabilidade, embasamento técnico e, principalmente, diálogo entre quem vive a realidade do mercado de trabalho.
Um estudo recente do Instituto de Pesquisa e Análise da Fecomércio-MT traz luz a essa discussão ao avaliar os impactos econômicos de uma eventual redução da jornada em Mato Grosso. Os dados mostram que estamos diante de uma mudança estrutural, com efeitos diretos sobre custos, preços, emprego e a própria sustentabilidade das empresas. Em um estado como o nosso, onde comércio e serviços representam mais de 60% dos empregos formais, qualquer alteração nesse sentido precisa ser cuidadosamente planejada.
As simulações indicam que o custo adicional mensal pode chegar a até R$ 2,2 bilhões para a economia estadual, sendo mais de R$ 669 milhões apenas no comércio. Mesmo em cenários mais conservadores, os valores permanecem elevados. Isso acontece porque, ao reduzir a jornada sem redução proporcional de salários, o custo por hora trabalhada aumenta, exigindo novas contratações ou pagamento de horas extras — ambos com impacto significativo na estrutura das empresas.
E aqui está um ponto crucial: Mato Grosso já enfrenta dificuldades na contratação de mão de obra qualificada. Temos a menor taxa de desemprego do país, o que, à primeira vista, é positivo. Mas, na prática, significa que há menos profissionais disponíveis no mercado. O Sistema Comércio, por meio do Senac, tem atuado fortemente na qualificação profissional, mas ainda assim há dificuldade em preencher vagas abertas. Ou seja, não se trata apenas de custo — trata-se também de disponibilidade de trabalhadores.
Outro aspecto importante é entender que cada empresa possui uma dinâmica própria. Na minha empresa, por exemplo, do setor de material de construção, convivemos com diferentes realidades: há departamentos que operam em escala 5×2, enquanto outros funcionam em 6×1, justamente para atender às demandas do consumidor. Essa flexibilidade é essencial para o funcionamento dos negócios e reforça a importância de que decisões dessa natureza considerem as especificidades de cada setor e atividade.
Por isso, a Fecomércio-MT, assim como a Confederação Nacional do Comércio (CNC), defende que mudanças na jornada de trabalho não sejam impostas por meio de lei ou decreto federal. O ambiente mais adequado para esse tipo de acordo é a Convenção Coletiva de Trabalho, que já ocorre anualmente e reúne representantes patronais e laborais. É nesse espaço que se constrói o equilíbrio entre as necessidades das empresas e os direitos dos trabalhadores, respeitando as particularidades regionais e setoriais.
Não somos contrários a avanços que beneficiem o trabalhador. Pelo contrário. Entendemos que melhores condições de trabalho contribuem para uma sociedade mais justa e produtiva. Mas é preciso ter clareza de que mudanças estruturais exigem planejamento, análise de cenário e responsabilidade com os impactos econômicos, em especial na pressão inflacionaria que medidas como essa trazem, diminuindo o poder de compra da população.
O Brasil ainda enfrenta desafios importantes em termos de produtividade, competitividade e equilíbrio fiscal. Qualquer medida que interfira diretamente no custo do trabalho precisa estar alinhada a esse contexto. Do contrário, corremos o risco de gerar efeitos contrários aos desejados, como aumento de preços, redução de empregos formais ou até ampliação da informalidade.
O debate é necessário. Mas ele precisa ser técnico, equilibrado e construído a muitas mãos. É assim que avançamos de forma sustentável, garantindo desenvolvimento econômico e social para todos.
(*) WENCESLAU JÚNIOR é empresário do setor de material de construção há mais de 40 anos e está desde 2018 como presidente do Sistema Comércio Mato Grosso, formado por Fecomércio, Sesc, Senac e IPF-MT.







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