Sob o terceiro mandato de Lula, a dívida bruta brasileira avançou de 71,7% para 82,9% do PIB. Com R$ 11,1 trilhões em obrigações e R$ 1,18 trilhão em juros acumulados em 12 meses, os números oficiais revelam a dimensão da pressão fiscal para 2027
Por Luiz Ernesto Barreto 28/10/2026 - 16h39
Mila Schneider Lavelle
Mila Schneider Lavelle
A dívida bruta do governo geral brasileiro atingiu R$ 11,1 trilhões em agosto de 2026, equivalentes a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo as Estatísticas Fiscais divulgadas pelo Banco Central em 30 de setembro.
O resultado coloca o endividamento público no centro do debate sobre as condições econômicas que o próximo governo encontrará em janeiro de 2027.
Em 2022, último ano do governo Jair Bolsonaro, a dívida bruta correspondia a aproximadamente 71,7% do PIB, segundo a série apresentada pelo Tribunal de Contas da União (TCU).
Em agosto de 2026, o indicador alcançou 82,9%, uma elevação de aproximadamente 11,2 pontos percentuais em relação ao encerramento de 2022.
O aumento ocorreu durante o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, iniciado em 1º de janeiro de 2023.
A evolução da dívida
O Banco Central registrou uma dívida bruta de R$ 8,079 trilhões em dezembro de 2023 e R$ 8,984 trilhões em dezembro de 2024, conforme dados apresentados no Relatório de Política Monetária de março de 2025.
Em agosto de 2026, o estoque chegou a R$ 11,1 trilhões.
A comparação entre dezembro de 2023 e agosto de 2026 representa uma expansão nominal de aproximadamente R$ 3,02 trilhões.
O crescimento da dívida não corresponde integralmente a novos gastos primários. Segundo o Banco Central, sua evolução também reflete juros nominais, emissões líquidas de títulos, variações cambiais e o comportamento do PIB.
Juros ultrapassam R$ 1 trilhão
Nos doze meses encerrados em agosto de 2026, os juros nominais apropriados pelo setor público consolidado somaram R$ 1,182 trilhão, equivalentes a 8,86% do PIB.
No mesmo período, o déficit nominal alcançou R$ 1,264 trilhão, ou 9,48% do PIB.
O resultado nominal incorpora o saldo primário e os juros da dívida pública. Por isso, não deve ser confundido com o déficit primário, que exclui os juros.
Governo Central acumula déficit de R$ 97,1 bilhões
O Relatório de Avaliação do Cumprimento das Metas Fiscais do segundo quadrimestre de 2026, produzido pela Secretaria do Tesouro Nacional e pela Secretaria de Orçamento Federal, registrou déficit primário de R$ 97,1 bilhões no Governo Central entre janeiro e agosto.
O mesmo documento informou déficit de R$ 9 bilhões nas empresas estatais federais abrangidas pela apuração.
Os resultados são referentes a conjuntos institucionais diferentes e não devem ser confundidos com o resultado do setor público consolidado.
Restrições atingem ministérios
Em 30 de setembro de 2026, o Ministério do Planejamento anunciou contenção orçamentária de R$ 16,06 bilhões no Poder Executivo federal.
Segundo o comunicado oficial, R$ 3,3 bilhões desse montante incidiam sobre emendas parlamentares.
Entre os órgãos atingidos pelas restrições estavam o Ministério da Educação, com R$ 1,325 bilhão, o Ministério da Agricultura e Pecuária, com R$ 489,9 milhões, e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, com R$ 153,8 milhões.
O governo também manteve restrições de empenho de R$ 24,06 bilhões até novembro, conforme o cronograma de execução das despesas discricionárias.
Esses mecanismos são utilizados para adequar a execução orçamentária às metas e aos limites fiscais. Os valores retidos não representam necessariamente despesas canceladas de forma definitiva.
O que ficará para 2027
A dívida pública existente não desaparece com a troca de presidente.
Em janeiro de 2027, a administração federal continuará responsável pelas obrigações da União, pelo serviço da dívida e pela execução das despesas previstas na legislação orçamentária.
O estoque de R$ 11,1 trilhões registrado em agosto, entretanto, não deve ser tratado como o valor definitivo a ser herdado pelo próximo governo. O montante poderá variar até dezembro de 2026.
Também é necessário distinguir a dívida bruta do governo geral, que inclui obrigações federais, estaduais e municipais, da dívida pública federal administrada pelo Tesouro Nacional.
Os dados disponíveis demonstram que o Brasil chega ao encerramento de 2026 com endividamento superior ao observado no início do terceiro mandato de Lula, despesas financeiras expressivas e restrições na execução do Orçamento.
O balanço definitivo do mandato dependerá dos resultados fiscais dos últimos meses do ano.
O fato documentado é que a dívida bruta já ultrapassou R$ 11 trilhões. O tamanho exato da conta a ser transferida à próxima administração somente poderá ser estabelecido com o fechamento das estatísticas de dezembro.
FLÁVIO PODERIA TER VENCIDO A ELEIÇÃO. MAS TERIA HERDADO UMA CONTA TRILIONÁRIA.
O Brasil chega ao fim de 2026 com uma dívida bruta de R$ 11,1 trilhões, juros superiores a R$ 1 trilhão em doze meses e bilhões em despesas federais sob restrição.
Se Flávio Bolsonaro tivesse vencido, assumiria em janeiro de 2027 a responsabilidade de administrar esse cenário fiscal. Que vem se acumulando no governo Lula pelos últimos anos.
Com a reeleição de Lula, a responsabilidade de enfrentar os próximos quatro anos de pressão sobre as contas públicas permanece com o próprio presidente.
O que parecia ser uma vitória eleitoral poderia ter se transformado em um cavalo de Troia político: conquistar o Planalto e receber, junto com a faixa presidencial, uma das contas mais difíceis de administrar.
A reportagem examina os documentos oficiais para separar a dívida histórica do país, seu crescimento durante o terceiro mandato de Lula e os compromissos que permanecerão em 2027.
Fontes: Banco Central — Estatísticas Fiscais Divulgação de 30/09/2026; dívida de R$ 11,1 trilhões e juros acumulados em 12 meses.
TCU — Fatos Fiscais Comparação da dívida pública de 2022 e 2023. Tesouro Nacional — Metas fiscais Relatório do segundo quadrimestre de 2026; déficit acumulado de R$ 97,1 bilhões.
Ministério do Planejamento — 30/09/2026 Decreto e tabela de contenções orçamentárias por órgão.
*Mila Schneider Lavelleé correspondente internacional, colunista, jornalista e teóloga. Formada pela Universidade de Columbia com bacharelado em Religião, ela é especialista em geopolítica, relações internacionais, estudos do Oriente Médio. Antes de ingressar no jornalismo, atuou nas áreas de comunicação estratégica, relações institucionais e marketing, liderando importantes projetos nacionais e internacionais. Atualmente, atua como correspondente internacional e colunista do jornal Folha do Estado, cobrindo política global, diplomacia, segurança internacional.
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