A direita perdeu. E agora?
Ricardo Carvalho No rescaldo das eleições presidenciais brasileiras, talvez seja mais importante compreender por que a direita perdeu do que procurar culpados pela derrota.
A virada eleitoral deixou uma parcela significativa da direita em estado de choque. Havia, sobretudo depois do primeiro turno, uma percepção de que a eleição estava praticamente decidida. Instalou-se uma confiança que, retrospectivamente, parece ter sido excessiva. Enquanto isso, a esquerda fez aquilo que historicamente sabe fazer muito bem: mobilizou-se.
Não deveria ser surpresa. A esquerda brasileira tem raízes intelectuais e políticas profundamente influenciadas pelas tradições marxista, leninista, stalinista e maoista, correntes nas quais militância, organização, ocupação dos espaços políticos e disputa permanente pela sociedade sempre desempenharam papel central. Pode-se, e especialmente, deve-se discutir criticamente o caráter autoritário e, em suas manifestações históricas extremas, totalitário dessas tradições. Mas seria um erro político ignorar sua enorme capacidade de mobilização.
A direita parece tê-la subestimado.
Depois do primeiro turno, comportou-se em muitos momentos como se bastasse administrar uma vantagem. Houve, é verdade, vozes dissonantes. Entre os dois turnos, alguns procuraram, debalde, conquistar uma parcela cada vez maior da população que já não se identifica verdadeiramente nem com a direita nem com a esquerda. São brasileiros cansados da política nacional, descrentes dos seus protagonistas e, principalmente, à espera de propostas concretas para suas vidas e para o desenvolvimento do país.
Foi justamente aí que a direita mais falhou.
Faltou-lhe apresentar uma visão de futuro capaz de responder a uma pergunta elementar: que Brasil pretendemos construir nos próximos dez, vinte ou trinta anos?
Não basta dizer que o outro lado é pior. Não basta mobilizar o eleitor pelo medo da esquerda, pelo antipetismo ou pela rejeição a determinadas figuras políticas. Da mesma forma que não basta à esquerda mobilizar permanentemente o medo da direita. Um país não pode viver indefinidamente escolhendo o candidato que considera menos perigoso.
Entre as propostas apresentadas pela direita, o chamado Banco da Prosperidade foi, sinceramente, uma das poucas ideias que me pareceram efetivamente novas e merecedoras de discussão. Mas uma proposta isolada não constitui uma estratégia de país.
O Brasil precisa de algo muito maior.
Precisamos começar a discutir uma verdadeira política de Estado, e não apenas políticas de governo. Uma estratégia suficientemente sólida para sobreviver às eleições, às alternâncias de poder e, principalmente, às personalidades políticas.
Esse talvez seja um dos maiores problemas da política brasileira contemporânea: transformamos projetos políticos em projetos pessoais (ou vice versa) Discutimos Lula, Bolsonaro, governadores, senadores e candidatos muito mais do que discutimos produtividade, educação, infraestrutura, competitividade, industrialização, tecnologia, segurança jurídica ou equilíbrio das contas públicas.
Personalidades passam. O país fica.
Uma política de desenvolvimento precisa combinar princípios que frequentemente são apresentados, de maneira equivocada, como incompatíveis.
Precisamos de desenvolvimento social, porque crescimento econômico que não melhora concretamente a vida da população perde sua legitimidade. Mas precisamos igualmente de responsabilidade fiscal, porque nenhum programa social é sustentável quando financiado indefinidamente por déficits, endividamento e inflação.
Precisamos também enfrentar seriamente a questão tributária. Não apenas simplificar impostos, mas discutir o peso que o Estado coloca sobre quem produz, investe, emprega e consome. O Brasil necessita de desoneração tributária responsável, associada à revisão das despesas públicas, ao aumento da eficiência do Estado e à criação de condições para que empresas possam investir e competir.
É preciso gerar riqueza antes de discutir permanentemente como distribuí-la.
E gerar riqueza exige produtividade, educação de qualidade, infraestrutura, energia competitiva, tecnologia, segurança jurídica, crédito, investimento e um ambiente no qual empreender não seja uma batalha diária contra o próprio Estado.
Nada disso deveria pertencer exclusivamente à direita ou à esquerda.
São questões nacionais.
Talvez a derrota eleitoral possa, paradoxalmente, oferecer à direita uma oportunidade. Em vez de procurar apenas um novo nome, um novo líder ou alguém capaz de reunir novamente o eleitorado, deveria aproveitar este momento para construir algo muito mais difícil: uma visão de Brasil.
Uma visão suficientemente clara para dizer ao trabalhador onde estarão os empregos do futuro; ao empresário, por que vale a pena investir; ao jovem, por que vale a pena estudar e permanecer no país; ao mais pobre, como poderá conquistar autonomia; e às próximas gerações, que país receberão.
Se a direita limitar sua reflexão à escolha de uma nova personalidade capaz de derrotar a esquerda na próxima eleição, poderá até voltar ao poder algum dia.
Mas continuará sem responder à pergunta essencial.
Para quê?
Para quê voltar ao poder? Para administrar a máquina pública por mais quatro anos, distribuir cargos e reagir às crises à medida que surgirem? Ou para transformar o país de maneira duradoura, criando as condições para que mais brasileiros tenham liberdade, segurança, prosperidade e oportunidades?
Essa pergunta precisa orientar todo o debate. Uma proposta política não pode se limitar a preservar o que existe, tampouco a desfazer tudo o que o adversário fez. Precisa definir prioridades, estabelecer metas e explicar quais sacrifícios serão necessários para alcançá-las. Precisa dizer que tipo de Estado se pretende construir, qual será o papel da iniciativa privada, como serão protegidos os mais vulneráveis e de que maneira o crescimento econômico se converterá em mobilidade social.
Essa finalidade maior também exige uma visão de longo prazo. Para quê reformar a educação? Para formar cidadãos mais livres, trabalhadores mais preparados e uma sociedade capaz de inovar. Para quê investir em infraestrutura? Para reduzir custos, integrar o território e ampliar as oportunidades. Para quê equilibrar as contas públicas? Para impedir que o futuro seja consumido pelas escolhas irresponsáveis do presente. Para quê fortalecer as instituições? Para que direitos, contratos e regras não dependam da vontade ocasional de governantes.
Sem esse horizonte, cada proposta permanece isolada e cada eleição se transforma em uma disputa de sobrevivência. Com ele, medidas econômicas, sociais e institucionais passam a fazer parte de uma mesma direção.
A direita não precisa apenas convencer os eleitores de que é capaz de governar. Precisa convencê-los de que sabe por que quer governar e para onde pretende conduzir o Brasil.
A derrota, portanto, não deve ser apenas lamentada: deve ser transformada em ponto de partida. A direita precisa abandonar a dependência de salvadores, superar a política baseada exclusivamente na rejeição ao adversário e reunir quadros, ideias e instituições em torno de uma estratégia de longo prazo. Uma estratégia que sobreviva a líderes, eleições e ciclos de popularidade; que estabeleça metas para a educação, a produtividade, a segurança, a infraestrutura, as contas públicas e a mobilidade social; e que seja capaz de explicar, com honestidade, tanto os benefícios quanto os sacrifícios necessários.
O Brasil não precisa de mais uma campanha fundada no medo, na nostalgia ou na promessa de que um novo nome resolverá tudo. Precisa de uma direção. Precisa de uma direita capaz de construir, defender e executar uma visão de país, não apenas de conquistar o poder, mas de usá-lo para preparar o futuro.
Esse é o desafio. E também a convocação: que a direita comece agora a construir a visão de Brasil que ainda não apresentou.
Porque vencer a próxima eleição pode recolocá-la no governo.
Mas somente uma estratégia de longo prazo poderá dar sentido a essa vitória.
Ricardo Carvalho é empreendedor, estrategista em tecnologia e articulista, com atuação destacada na interseção entre inovação digital, governança pública, economia institucional e pensamento crítico contemporâneo e escreve sobre temas diversos com uma abordagem analítica, ética e livre de simplificações ideológicas







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