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Um dos primeiros construtores do Mato Grosso Colonial


Um dos primeiros construtores do Mato Grosso Colonial Benjamin Duarte Monteiro Neto

Quando se procura compreender os primeiros anos da ocupação colonial de Chapada dos Guimarães, um nome aparece de maneira inevitável: Antônio de Almeida Lara. Sua trajetória é particularmente interessante porque reúne, em um único personagem, alguns dos principais elementos que marcaram a expansão portuguesa para o interior da América no início do século XVIII: o sertanismo paulista, a mineração, as monções, a escravidão, a agricultura de abastecimento, a concessão de sesmarias e o exercício do poder militar e administrativo.

É preciso, entretanto, separar tradição, repetição historiográfica e documento. Durante muito tempo Almeida Lara foi apresentado simplesmente como "sorocabano". Há, porém, fonte genealógica publicada que o identifica como nascido na povoação de Nossa Senhora da Penha de França, então termo da Vila de Parnaíba, na Capitania de São Paulo. O Anuário Genealógico Brasileiro de 1939 registra expressamente essa naturalidade. Assim, parece mais prudente defini-lo, por enquanto, como paulista, mencionando a Penha de França como naturalidade documentada por essa fonte e registrando que parte da bibliografia o chama de sorocabano. Essa divergência merece permanecer assinalada até que se localize um registro paroquial ou documento coevo capaz de encerrá-la definitivamente.

Almeida Lara não chegou ao centro da América portuguesa como um simples agricultor à procura de terras. Sua formação estava ligada ao universo dos sertões e da mineração. Existem referências à sua experiência anterior em regiões auríferas, inclusive no circuito de Pitangui, em Minas Gerais, e do Rio de Contas, na Bahia. A documentação e a historiografia também o vinculam ao grupo de Sebastião Pinheiro Raposo, personagem relacionado às explorações auríferas do Rio de Contas. Portanto, quando Almeida Lara se dirigiu às minas do Cuiabá, já conhecia a lógica econômica e humana de uma fronteira mineradora.

Sua chegada deve ser compreendida dentro do fenômeno das monções. Depois da descoberta do ouro nas minas do Cuiabá, o caminho entre São Paulo e o extremo oeste passou a ser percorrido por grandes viagens fluviais, nas quais homens, ferramentas, mantimentos, armas, mercadorias e notícias atravessavam milhares de quilômetros. A cronologia das monções registra, em 1720, quatro comboios, dos quais apenas dois teriam alcançado as minas de Cuiabá, estando em um deles gente e carga pertencentes a Antônio de Almeida Lara. É uma informação importante porque situa o personagem dentro de uma estrutura de deslocamento que exigia recursos, organização e capacidade de mobilização.

Nas minas, sua primeira atividade esteve diretamente ligada à procura do ouro. Fontes regionais registram que, em 1721, Almeida Lara realizava pesquisas auríferas rio Coxipó acima e aparece associado aos primeiros tempos do Arraial da Forquilha. Paulo Pitaluga Costa e Silva, em estudo biográfico publicado pelo Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, coloca-o entre os personagens de maior importância nos primeiros núcleos do vale do Coxipó, São Gonçalo, Forquilha e as Lavras do Sutil, que dariam origem ao núcleo urbano de Cuiabá.

Esse ponto merece destaque. Antes de ser sesmeiro, senhor de engenho e homem de governo, Almeida Lara foi homem da mineração. Em linguagem atual, poderíamos chamá-lo de garimpeiro ou minerador de ouro, embora "minerador" seja historicamente mais adequado ao contexto documental do século XVIII. Sua presença na região nasceu da mesma força que atraiu tantos homens ao sertão cuiabano: o ouro. A explosão populacional provocada pelas descobertas criou um problema imediato: alimentar a população. Era necessário produzir milho, feijão, mandioca, açúcar, aguardente, criar animais e estabelecer roças capazes de abastecer os arraiais. É nesse ponto que a história de Almeida Lara passa a se confundir profundamente com a história de Chapada dos Guimarães.

A documentação da sesmaria é extraordinária justamente porque permite perceber que a ocupação das terras da Chapada ocorreu antes da formalização jurídica da propriedade. Na petição que fundamentou a concessão, Almeida Lara declarou que já se encontrava "situado e afazendado" nas chapadas havia seis anos, onde havia estabelecido fazendas, roças, canaviais e criações. Declarou ainda possuir mais de trinta escravos e argumentou que sua propriedade servia às próprias minas, fornecendo mantimentos. Em outras palavras: quando recebeu o título, a fazenda já existia.

Em 1726, Rodrigo César de Meneses, governador e capitão-general da Capitania de São Paulo, jurisdição à qual pertenciam então as minas do Cuiabá, concedeu a Antônio de Almeida Lara a carta de sesmaria. A pesquisa de Tiago Kramer de Oliveira demonstra que esta foi à primeira carta de sesmaria concedida nas Minas do Cuiabá. O documento encontra-se referenciado no Arquivo Público do Estado de São Paulo, APESP, no "Livro de Sesmarias, Patentes e Provisões", Livro 2, folhas 75-76. A transcrição e o repertório das sesmarias foram também publicados pelo próprio Arquivo Público paulista, inclusive na coleção "Sesmarias (1720/1736)", volume III, e no "Repertório das Sesmarias".

A carta descreve terras que compreendiam o capão de mato onde já estava instalada a fazenda, um olho-d'água para o nascente, o local onde havia sido assentado um engenho e referências ao taquaral. Estudos posteriores apontam uma concessão que alcançava duas léguas em quadra, abrangendo espacialmente fazenda e engenho.

Há aqui uma correção importante para nosso texto histórico: não encontrei, até esta revisão, fundamento seguro para afirmar que um pesquisador moderno específico "descobriu" a carta. O que podemos afirmar documentalmente é que o registro está preservado no APESP e foi publicado e utilizado por pesquisadores. Tiago Kramer de Oliveira o localizou e citou diretamente como "Livro de sesmarias patentes e provisões. Livro 2. Apesp, f. 75-76". Portanto, até encontrarmos evidência sobre quem primeiro identificou modernamente o documento, é melhor não atribuir sua descoberta a ninguém.

A sesmaria também desmonta uma ideia simplificadora segundo a qual a história colonial de Chapada teria começado apenas com a organização religiosa posterior. Antes da missão jesuítica de Sant'Ana, já existia em Serra Acima uma estrutura produtiva considerável. A própria declaração de Almeida Lara fala em roças, canaviais, criação e mais de trinta escravizados. Não se tratava, portanto, de uma pequena roça isolada no sertão, mas de empreendimento econômico.

A propriedade ficou conhecida na tradição regional como Buriti ou Buriti Monjolinho. Fontes municipais situam sua sede na região onde posteriormente se estabeleceu a Escola Evangélica do Buriti. Esse ponto merece, no futuro, um trabalho de campo e cartográfico mais detalhado, cruzando os marcos descritos na sesmaria, capão, olho-d'água, taquaral e localização do engenho, com a geografia atual. Talvez seja possível reconstruir, ao menos aproximadamente, o espaço ocupado pela primeira grande unidade produtiva colonial da Chapada. O engenho de Almeida Lara também aparece indiretamente em um testemunho de época muito valioso. João Antônio Cabral Camelo, que chegou ao Cuiabá em 21 de novembro de 1727, relatou posteriormente que naquele momento existia apenas um engenho, localizado na Chapada, a cerca de dez ou doze léguas da vila. O testemunho reforça a importância econômica daquele empreendimento nos primeiros anos das minas.

Outro aspecto frequentemente esquecido é a dimensão política de Almeida Lara. Ele possuía patente de tenente-coronel das Ordenanças. No final de 1726, Rodrigo César de Meneses concedeu-lhe patente de brigadeiro. A documentação registra ainda sua atuação como brigadeiro-regente. Nauk Maria de Jesus demonstrou que essa regência ultrapassou, na prática, a esfera estritamente militar, envolvendo atribuições administrativas e produzindo conflitos com autoridades régias que chegaram posteriormente à Vila Real.

Isso nos apresenta um personagem muito mais complexo do que o simples "fundador de uma fazenda". Almeida Lara foi minerador, sertanista, proprietário rural, senhor de engenho, detentor de mão de obra escravizada, oficial das Ordenanças e personagem político dos primeiros anos do poder português nas minas do Cuiabá.

E talvez seja justamente aí que esteja sua maior importância para a história de Chapada dos Guimarães.

A Chapada não aparece, nesse primeiro momento, isolada de Cuiabá. Ao contrário, nasce economicamente ligada às minas. Enquanto o ouro atraía homens para o vale do Coxipó, Serra Acima oferecia terras, água, clima e condições para a produção dos alimentos e derivados necessários à sobrevivência da população mineradora. O ouro e a agricultura não constituíam duas histórias separadas; eram partes de um mesmo processo.

Antônio de Almeida Lara personifica essa passagem. Veio atraído pelo ouro, percorreu o caminho das monções, pesquisou lavras no Coxipó e, percebendo as necessidades daquele novo mundo que se formava, estabeleceu uma base produtiva na Chapada. A carta de sesmaria de 1726 não inicia essa ocupação: ela a reconhece juridicamente. O próprio documento informa que ele já estava afazendado havia seis anos. Essa diferença é fundamental. Se aceitarmos literalmente a informação constante da petição, sua presença produtiva em Serra Acima recua aproximadamente a 1720. Outros estudos trabalham com 1721 ou 1722 para a consolidação da fazenda.

A divergência de um ou dois anos não diminui a importância do fato; pelo contrário, demonstra a necessidade de trabalharmos sempre com o documento à frente da tradição. Também é importante lembrar que a ocupação colonial não ocorreu sobre um território vazio. Muito antes de Almeida Lara, a região era conhecida, percorrida e habitada por populações indígenas, e possui uma história humana muito anterior ao século XVIII, registrada inclusive por seu patrimônio arqueológico. Assim, quando falamos em "primeiro ocupante" ou "primeira fazenda", devemos deixar claro que estamos tratando da ocupação colonial luso-brasileira documentada, e não do início da presença humana na Chapada. Ao final, Almeida Lara surge como uma das chaves para compreender não apenas Chapada dos Guimarães, mas o próprio nascimento da sociedade colonial mato-grossense.

Sua vida atravessa o ouro, a monção, o engenho, a sesmaria e o poder. É daqueles personagens que aparecem em vários capítulos da história porque ajudaram a construir as estruturas sobre as quais outros acontecimentos se desenvolveriam. Talvez por isso sua presença em Chapada mereça ser observada com maior cuidado. A sesmaria de 1726 não é apenas um antigo título de terra. É um documento que permite enxergar a transformação de Serra Acima em espaço produtivo articulado às minas do Cuiabá e, sobretudo, perceber que a história de Chapada dos Guimarães está ligada aos acontecimentos fundadores de Mato Grosso desde os primeiros anos da corrida do ouro.

*Benjamin Duarte Monteiro Neto é Historiador e Cavaleiro, apaixonado por Cavalos

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