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Notícia da Independência só chegou a MT 4 meses depois

Pablo Rodrigo - GD
Notícia da Independência só chegou a MT 4 meses depois

Se nesta segunda-feira (7) o Brasil inteiro comemora o Dia da Independência do Brasil com desfiles e festividades, Mato Grosso só pôde comemorar e soltar o grito de um país livre, 4 meses depois que episódio de em 7 de setembro de 1822, às margens do riacho do Ipiranga, o príncipe regente Dom Pedro proclamou a emancipação política do Brasil em relação a Portugal.

 

Isso porque os habitantes da então província de Mato Grosso, o histórico grito não passou de um silêncio prolongado por exatamente 120 dias.

 

A confirmação oficial da proclamação e da aclamação do novo imperador só alcançou a região na primeira semana de janeiro de 1823, quando um Te Deum (significa A Ti, ó Deus, nós louvamos e é um dos hinos solenes mais antigos e tradicionais da Igreja Católica) em ação de graças foi entoado na Catedral de Cuiabá.

 

A lentidão na chegada da notícia escancarou uma província fragmentada e imersa em uma dura disputa interna pelo controle político e administrativo do território, entre Cuiabá e Vila Bela da Santíssima Trindade.

 

Enquanto a Corte no Rio de Janeiro buscava centralizar o poder e garantir a coesão das províncias ao redor da figura de Dom Pedro I, Mato Grosso vivia o seu próprio embate federativo: a rivalidade geopolítica entre a Vila Real de Cuiabá, o dinâmico polo econômico e populacional da região, e Vila Bela da Santíssima Trindade, a sede oficial do governo instalada às margens do rio Guaporé.

 

Criada em 1748 após a descoberta de ouro nas bacias dos rios Cuiabá, Coxipó e Guaporé, a capitania teve sua capital estabelecida em Vila Bela a partir de 1751 por ordem da Coroa portuguesa. A escolha atendeu a prioridades estritamente defensivas, que era preciso fixar a presença da administração colonial na fronteira com a América Hispânica para barrar eventuais investidas espanholas.

 

Cuiabá, por outro lado, concentrava o grosso do comércio, a atividade agrícola de abastecimento e a maior parcela da população.

 

No início da década de 1820, contudo, o cenário internacional transformou o equilíbrio local. Com a independência dos países vizinhos, a exemplo do Paraguai, em 1811, a ameaça iminente de invasão espanhola diminuiu gradativamente.

 

Vila Bela

O enfraquecimento militar de Vila Bela expôs a fragilidade da capital oficial, situada em uma área distante e economicamente estagnada, enquanto Cuiabá emergia com força política cada vez maior.

 

O estopim para o conflito institucional ocorreu com a Revolução Liberal do Porto, de 1820. A exigência de instalação de Juntas Provisórias de Governo na colônia levou à deposição do governador-geral Francisco de Paula Magessi em Cuiabá, em agosto de 1821, por uma aliança militar e mercantil.

 

As elites de Vila Bela rejeitaram a legitimidade do ato, acusando Cuiabá de usurpar o aparato administrativo. A partir de então, Mato Grosso passou a ser governado por duas juntas rivais e simultâneas.

 

Paralelamente às negociações sobre a independência nacional, as duas cidades travaram um duelo diplomático a distância. Em janeiro de 1822, Vila Bela enviou procuradores pela rota do rio Guaporé com destino a Lisboa, buscando obter junto às Cortes Portuguesas o reconhecimento de sua junta como o único governo legítimo do território.

 

Estratégia de Cuiabá

Cuiabá adotou uma estratégia oposta. Jogando com a vastidão geográfica e com o tempo que as informações levavam para circular, as lideranças cuiabanas enviaram representações diretamente a dom Pedro I, no Rio de Janeiro, em dezembro de 1821. No documento entregue à Corte fluminense, Cuiabá solicitou o reconhecimento da sua própria junta, omitindo estrategicamente a existência do governo instalado em Vila Bela.

 

A manobra cuiabana funcionou. Ao aliar-se precocemente ao projeto emancipacionista liderado pelo príncipe regente, a elite de Cuiabá garantiu a bênção do poder central do Império. Diante da necessidade de manter a integridade territorial contra as pretensões reasseguradoras de Lisboa, o Rio de Janeiro chancelou a preponderância cuiabana na região.

 

Apesar da adesão oficial ao novo Império do Brasil, a autonomia proporcionada pelo sistema de juntas trouxe instabilidade, crises econômicas e frequentes atritos na fronteira. De modo paradoxal, dois dias após celebrarem a aclamação de Dom Pedro I em janeiro de 1823, os cuiabanos redigiram um pedido ao imperador solicitando o retorno do regime de Governo Geral na província.

 

A elite local avaliou que a figura centralizadora de um governador nomeado pela Corte oferecia mais garantias de segurança e estabilidade institucional do que o conturbado autogoverno das juntas regionais.

 

Vitória da Capital

A vitória definitiva de Cuiabá consolida-se nos anos subsequentes, culminando na transferência formal e definitiva da capital provincial em 1835. Contudo, a transição para o período imperial não alterou as bases sociais de Mato Grosso. O cotidiano da província permaneceu ancorado no latifúndio e na exploração do trabalho escravizado de populações de origem africana e indígena.

 

As disputas pelo poder local também não cessariam com o fim da tutela colonial. Anos mais tarde, a insatisfação nativista contra os comerciantes portugueses e a permanência de privilégios resultaram na Rusga de 1834, uma revolta violenta que voltou a sacudir as ruas de Cuiabá. A pacificação política e a consolidação do Estado nacional no extremo oeste brasileiro só se efetivariam décadas depois, durante o segundo reinado, sob o governo de dom Pedro II. (Com informações do Portal Bicentenário da Independência)

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