Igreja do Rosário guarda séculos de história à espera de restauração em Cuiabá
Interditado desde 2022, templo reúne memórias da fé cuiabana e busca recursos para uma obra estimada em mais de R$ 8 milhões
Há mais de três séculos, a Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito acompanha a história de Cuiabá. Erguido ainda no período colonial, o templo guarda entre suas paredes imagens sacras, fotografias, relatos de fé e lembranças de gerações de cuiabanos. Desde 2022, porém, toda essa história permanece atrás de portas fechadas por causa de problemas estruturais que levaram à interdição do espaço.
Pisos de madeira apresentam rachaduras e buracos, parte da estrutura precisa de reparos e até o sistema de climatização se tornou um desafio em uma das cidades mais quentes do país. O cenário visto entre os bancos vazios pode, à primeira vista, transmitir a sensação de abandono. Mas, longe disso, a comunidade mantém as atividades religiosas e se mobiliza para conseguir os recursos necessários para uma restauração estimada em pouco mais de R$ 8 milhões.
A reportagem do Leiagora teve acesso ao interior do templo e encontrou não apenas uma igreja impedida de receber seus fiéis, mas também um pedaço da história de Cuiabá temporariamente inacessível ao público.
Essa memória aparece nas paredes, nos quadros, nas fotografias antigas e também na chamada “sala dos milagres”, espaço onde fiéis que acreditam ter alcançado graças deixam lembranças como forma de agradecimento. São incontáveis fotografias e registros associados a relatos de cura, aquisição de bens, longevidade e outras bênçãos.
No interior da igreja permanecem ainda os altares de arte sacra e as esculturas de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, além do altar principal, que durante décadas foi cenário de missas, celebrações e momentos importantes para a comunidade católica cuiabana.
Apesar da interdição, a rotina religiosa não parou. Atualmente, as missas são realizadas nos fundos do templo principal, no espaço onde funcionava o Salão Paroquial. É ali que os fiéis continuam se reunindo enquanto aguardam a possibilidade de retornar à igreja.
Durante a visita, o Leiagora conversou com o pároco padre Pedro Canísio Schroeder, que já atuava na igreja quando o imóvel foi interditado pela Defesa Civil. Segundo ele, os problemas estruturais vinham se agravando havia algum tempo até que a permanência dos fiéis no local deixou de ser considerada segura.
“A igreja vinha apresentando patologias muito significativas nos últimos anos. Inclusive, ela foi gradativamente se comprometendo sobretudo na do ponto de vista da segurança dos fiéis. O piso estava começando a dar muito problema, havia partes comprometidas, a estrutura de vigas, tábuas e chegou um ponto em que a Defesa Civil do Mato Grosso, aqui de Cuiabá, fez uma vistoria e constataram que a igreja devia ser fechada imediatamente”, relatou.
O padre conta que, após a interdição, uma das primeiras dificuldades foi compreender os caminhos necessários para viabilizar a recuperação de um imóvel histórico e encontrar instituições capazes de auxiliar no processo. Segundo ele, naquele momento, era como se a equipe estivesse “tateando no escuro”.
Restauração exige trabalho especializado
Para que a igreja volte a receber o público, será necessário um processo de restauração que vai além de uma reforma convencional. Por se tratar de um patrimônio histórico, a intervenção exige profissionais especializados e materiais compatíveis com as características originais da construção.
Entre os cuidados previstos estão o uso de madeira tratada para a cobertura e de produtos específicos para a conservação das peças de arte sacra, respeitando princípios como reversibilidade e compatibilidade química dos materiais.
O sistema de climatização também deverá passar por uma mudança significativa. Atualmente instalado na parte superior da igreja, ele dificulta qualquer serviço de manutenção. O novo projeto prevê uma solução sob o piso, facilitando futuros reparos e reduzindo a necessidade de intervenções no telhado.
A intenção, segundo o pároco, é que a restauração seja acompanhada pela implantação de um plano permanente de manutenção, evitando que novos problemas estruturais se acumulem ao longo dos anos.
“Nós queremos fazer essa reforma e já deixar implantado um plano permanente de manutenção. Hoje qualquer conserto do ar-condicionado exige retirar telhas e montar uma plataforma, o que torna tudo muito caro”, explicou.
Busca por R$ 8 milhões
O orçamento estimado para a restauração é de R$ 8.047.330,43. Segundo padre Pedro, já houve sinalizações de recursos por parte do Governo do Estado e de parlamentares, por meio de emendas, mas a liberação demorou mais do que a comunidade esperava.
Mesmo diante das dificuldades, ele considera que o projeto avançou principalmente a partir de 2025, quando uma comissão passou a coordenar de forma mais sistemática o trabalho de recuperação do templo.
“Agora, graças a Deus em 2025 sobretudo, a gente criou uma pequena comissão de trabalho que fosse conduzir e coordenar os trabalhos para podermos aos pouco dar uma cara para esse projeto que devia ser usado para fazer essa reforma da igreja. Então temos aí agora no final do ano para já conseguimos fechar o ano com uma planilha de custo e já inscrevemos o projeto e agora estamos aí para poder fazer a reforma”, explicou ele.
Entre as alternativas estudadas para levantar os recursos estão mecanismos de incentivo à cultura, parcerias com instituições públicas e privadas, apoio de parlamentares e também a participação da própria comunidade, inclusive por meio de uma campanha de arrecadação.
Enquanto a obra não começa, a Igreja do Rosário e São Benedito segue vivendo de uma forma diferente: com o templo histórico fechado, mas com a comunidade ainda reunida ao redor dele, mantendo viva uma tradição que atravessa séculos da história de Cuiabá.







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