Enquanto Brasília olha para a campanha, Flávio Bolsonaro já olha para o governo. A montagem de seu núcleo econômico começa a revelar qual projeto pretende colocar diante do país e mostra que a disputa com Lula pode ser travada muito além das urnas: no modelo de Brasil que cada lado pretende deixar em 2030.
A eleição presidencial brasileira começa a entrar em uma fase mais séria. Enquanto os candidatos disputam votos, narrativas e alianças, Flávio Bolsonaro começa a montar algo que pode ser ainda mais importante para sua tentativa de chegar ao Palácio do Planalto: a estrutura intelectual e técnica de um eventual governo. O senador e candidato do PL reforçou sua equipe de formulação de políticas públicas com nomes provenientes do mercado financeiro, do setor de infraestrutura e do antigo governo de Jair Bolsonaro.
Entre eles está Adolfo Sachsida, ex-ministro de Minas e Energia e ex-secretário de Política Econômica, que passa a integrar o núcleo econômico coordenado por Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal e antiga integrante da equipe de Paulo Guedes. Também foram anunciados o economista Adriano Pires, especialista no setor energético; o advogado Alexandre Chequer, para infraestrutura; Carolina Ragazzi, ex-vice-presidente do Goldman Sachs no Brasil; e Lyvia Montezano, ligada à formulação de políticas voltadas às mulheres.
Isoladamente, são nomes.
Politicamente, porém, a composição revela uma direção.
O recado para o mercado
Flávio tenta transformar a candidatura bolsonarista em algo além da transferência do enorme capital político de Jair Bolsonaro.
Ele precisa demonstrar capacidade de governo.
E economia é justamente o terreno em que essa transição será testada.
A presença de Daniella Marques e Sachsida aproxima a campanha de uma escola econômica associada à responsabilidade fiscal, redução da intervenção estatal, estímulo ao setor privado e revisão do tamanho e da eficiência do Estado.
Nos últimos meses, a aproximação de Flávio com antigos integrantes da equipe de Paulo Guedes já vinha sendo construída. Daniella recrutou ex-integrantes do governo Bolsonaro para colaborar com a formulação econômica, enquanto o próprio Sachsida desenvolveu propostas destinadas a subsidiar o debate sobre um eventual governo a partir de 2027.
O movimento tem um destinatário evidente: o mercado.
Empresários, investidores e agentes financeiros querem saber não apenas quem pode vencer Lula, mas o que acontecerá com gastos, dívida, impostos, investimentos e segurança jurídica caso a oposição volte ao Planalto.
Flávio começa a responder.
A dívida no centro da batalha
Uma das ideias mais relevantes em discussão na campanha é substituir a atual estrutura fiscal por uma regra mais diretamente vinculada à trajetória da dívida pública. Segundo informações obtidas pela Reuters, a equipe trabalha com um mecanismo no qual o crescimento dos gastos seria progressivamente restringido conforme a relação dívida/PIB aumentasse. Com a dívida bruta acima de 80% do PIB, o desenho em discussão poderia chegar a congelar despesas federais em termos reais.
A proposta ainda está sendo desenvolvida e seus detalhes podem mudar.
Mas sua lógica :
transformar a dívida pública em uma das grandes fronteiras ideológicas da eleição de 2026.
Em vez de uma campanha construída exclusivamente em torno de costumes, segurança, Supremo Tribunal Federal e da figura de Jair Bolsonaro, Flávio tenta acrescentar uma pergunta econômica:
Qual Estado o Brasil consegue pagar?
É uma mudança importante.
Porque eleições são vencidas pelo voto. Governos, porém, são julgados também pela capacidade de financiar aquilo que prometem.
Sachsida e o laboratório de 2027
A entrada de Sachsida merece atenção especial.
O economista vem desenvolvendo o chamado Projeto Brasil, uma iniciativa que reúne aproximadamente 100 colaboradores e pretende produzir cerca de 200 propostas legislativas e administrativas para o próximo governo.
O projeto não se apresenta formalmente como programa partidário da campanha. Mas várias de suas ideias ajudam a compreender o universo econômico que hoje cerca Flávio Bolsonaro. Entre os princípios defendidos por Sachsida estão responsabilidade fiscal, aumento de produtividade, segurança jurídica, desburocratização e maior protagonismo do setor privado.
A ambição é particularmente interessante: não discutir apenas conceitos, mas deixar minutas de projetos de lei, decretos, medidas provisórias e propostas de emenda constitucional prontas para implementação.
Isso significa pensar não apenas na eleição.
Significa pensar no primeiro dia depois dela.
Menos Brasília, mais setor privado
As propostas associadas a Sachsida apontam para uma revisão mais profunda da presença do Estado na economia.
Seu Projeto Brasil defende uma âncora fiscal ligada à trajetória da dívida, revisão de subsídios considerados ineficientes, privatizações e concessões em determinadas áreas, digitalização do Estado, aumento da concorrência e redução de entraves regulatórios.
A tese central é conhecida, mas politicamente poderosa: crescimento sustentável não deveria depender da expansão permanente dos gastos públicos. O setor privado passaria a ocupar posição ainda mais central como motor de investimento e produtividade. Isso coloca a campanha de Flávio potencialmente em rota de colisão direta com a visão econômica defendida pelo campo governista.
E é justamente aí que a eleição pode ganhar profundidade.
Não será simplesmente Paulo Guedes 2.0
Seria precipitado, entretanto, afirmar que Flávio Bolsonaro pretende simplesmente restaurar integralmente o programa econômico de Jair Bolsonaro.
Há diferenças e existem disputas internas.
Dentro do próprio campo bolsonarista há divergências sobre quem deveria comandar a economia e até onde uma agenda liberal deveria avançar. Parte dos aliados prefere um nome claramente identificado com o mercado; outros defendem um perfil mais político e ideologicamente confrontador. Além disso, propostas associadas à campanha incluem elementos sociais que procuram reduzir a vulnerabilidade eleitoral de uma plataforma puramente fiscalista.
O desafio é evidente: convencer investidores de que haverá disciplina sem convencer milhões de eleitores de que disciplina significa perda de proteção.
Essa equação pode decidir muito mais do que a escolha de um ministro.
A verdadeira disputa começa agora
A formação da equipe econômica ocorre enquanto Flávio Bolsonaro se consolida como principal adversário de direita de Luiz Inácio Lula da Silva na corrida presidencial.
Pesquisas apontam uma disputa competitiva, embora Lula ainda apareça à frente em levantamentos recentes. Por isso, cada nome anunciado agora deve ser interpretado também como mensagem eleitoral.
Para a base bolsonarista, Flávio carrega o sobrenome.
Para o eleitor moderado, precisa apresentar previsibilidade.
Para o empresariado, precisa apresentar números.
Para o mercado financeiro, precisa demonstrar capacidade de execução.
E para derrotar Lula, precisará transformar tudo isso em uma narrativa que faça sentido para quem está muito distante da Faria Lima. A montagem do núcleo econômico mostra que a campanha percebeu esse problema.
Flávio Bolsonaro já não está apenas tentando provar que pode herdar os votos do pai. Começa a tentar provar que possui um projeto para governar sem ele.
É justamente aí que a eleição de 2026 pode mudar de patamar. Porque, quando candidatos começam a escolher os homens e mulheres que desenharão dívida, impostos, empregos, energia e investimentos, a disputa deixa de ser somente sobre quem ocupará o Planalto.
Passa a ser sobre qual Brasil sairá de dentro dele.
*Mila Schneider Lavelle é correspondente internacional, colunista, jornalista e teóloga. Formada pela Universidade de Columbia com bacharelado em Religião, ela é especialista em geopolítica, relações internacionais, estudos do Oriente Médio. Antes de ingressar no jornalismo, atuou nas áreas de comunicação estratégica, relações institucionais e marketing, liderando importantes projetos nacionais e internacionais. Atualmente, atua como correspondente internacional e colunista do jornal Folha do Estado, cobrindo política global, diplomacia, segurança internacional.



Flávio Bolsonaro 




COMENTÁRIOS