Quando a tecnologia dificulta a comunicação
Algumas soluções digitais podem se transformar em barreiras para milhões de pessoas.
Luzimar Collares A tecnologia nasceu para facilitar a vida das pessoas.
Mas, em alguns casos, pode estar fazendo exatamente o contrário. Basta observar algumas situações do cotidiano de pequenas e grandes cidades.
Tenho acompanhado nas redes sociais relatos da empresária de moda e influenciadora Suely Tonarque que me chamaram a atenção.
Ela se dedica a compartilhar experiências e orientações para uma velhice saudável e ativa.
Em uma das postagens, contou que, mais de uma vez, saiu para jantar ou tomar um café com amigas e desistiu de permanecer no estabelecimento quando descobriu que o único cardápio disponível era por QR Code.
A reação pode parecer exagerada para quem nasceu na era digital. Mas a fala de Suely revela uma questão importante: nem todas as pessoas se relacionam da mesma forma com a tecnologia. “Eu não suporto QR Code. Não é da minha geração, não é do meu tempo. Eu preciso pegar o cardápio, ler o cardápio”, desabafou.
A jornalista e apresentadora Silvia Poppovic engrossa a lista dos que detestam a cardápio por QR. Além do incômodo de manusear o celular à mesa, Silvia considera o ato deselegante e que rouba a atenção para a tela do smartphone em vez de desfrutar o momento.
O comentário ganha ainda mais relevância quando observamos os números. O Brasil possui mais de 32 milhões de idosos. Esse número representa 15,8% de todos os brasileiros. Apenas a cidade de São Paulo concentra mais de 2 milhões de pessoas acima dos 60 anos. Estamos falando de uma parcela significativa da população, com poder de consumo, experiência de vida e participação ativa na economia. E essa população não pode ser negligenciada, ainda mais com as projeções de aumento da expectativa de vida no país.
A questão não é defender uma volta ao passado nem ignorar os avanços tecnológicos. O problema surge quando uma ferramenta deixa de ser uma opção para se tornar a única alternativa. E essa não é uma queixa somente dos idosos. Há pessoas de todas as idades que não gostam dessas soluções digitais como única opção.
O QR Code pode ser extremamente útil. O atendimento por assistentes virtuais também, assim como os aplicativos e as plataformas digitais. O erro está em eliminar completamente outros caminhos que, para muitas pessoas, são as soluções com as quais estão acostumadas.
Quem nunca ficou preso em um atendimento automatizado tentando encontrar uma opção que permitisse falar com um ser humano? Em muitos casos, o cliente tem uma demanda específica que o robô simplesmente não consegue compreender. É o tipo de comunicação que, certamente, vai render uma avaliação negativa sobre o serviço.
Outro exemplo cada vez mais comum acontece quando serviços essenciais passam a funcionar exclusivamente por aplicativos. Estacionamentos, consultas, ingressos para eventos, acesso a prédios e até operações bancárias exigem que o usuário tenha um smartphone, internet, bateria carregada e familiaridade com ferramentas digitais. Para milhões de pessoas, isso não é tão simples quanto parece.
A tecnologia é uma ferramenta de comunicação. E comunicar significa conectar pessoas. Quando uma solução digital cria barreiras, gera constrangimento ou exclui parte do público, ela deixa de cumprir sua principal função.
Empresas e organizações precisam entender que inovação não é substituir pessoas por telas. Inovação é oferecer experiências melhores para todos. O desafio não é digitalizar tudo, e sim garantir que ninguém fique para trás.










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