23 de Julho de 2024

OPINIÃO Sexta-feira, 03 de Maio de 2024, 15:58 - A | A

Memórias de Marta de Arruda

neila oculos

 Neila Barreto

À época em que fui buscar informações para o livro “Gente que fez, Gente que faz – Cuiabá – Inventário de famílias pioneiras cuiabanas”, editado pela Entrelinhas, 2019, muitas memórias ficaram para trás. A medida do possível vou registrando aqui, pelo Hipernoticias, algumas muito importantes. Este, no olhar da jornalista Marta de Arruda. Vamos aqui lembrar algumas delas.

Zelito Bouret – nasceu em Cuiabá-MT no dia 12 de outubro de 1901, no local onde à época abrigou a Casa Bulhões, no bairro do Porto na capital. Hoje, no Porto, não temos mais a casa Bulhões. Era filho de Ana Lídia de Faria Bouret e José Aníbal Bouret. Seu avô João Jorge Bouret veio da França a convite do Marechal Floriano Peixoto, que solicitou a presença de uma missão militar para corrigir no Brasil algumas deficiências militares e dar orientação à Guerra do Paraguai. João era engenheiro militar pirotécnico. Nessa mesma ocasião chegou outra missão, a Belga, que trouxe para Cuiabá, o primeiro Hugueney.

Zelito contou para Marta de Arruda que, começou a sua vida trabalhando no comércio, tomava conta do armazém do seu pai – José. À época do trabalho no comércio fez amizade com Agrícola Paes de Barros, João Bento Rodrigues de Lima e Nezinho Lopes. “Como eles tinham boas ideias e eu dinheiro, eu montei o jornal “A Luz”, em Cuiabá. O objetivo do jornal era combater as coisas erradas feitas pelo governo da época e apoiar o povo.

Nas memórias de Zelito relatadas a jornalista Marta de Arruda, o Agrícola e o João Bento eram exímios oradores. Tinham muita facilidade para reunir o povo em comícios para falar contra o governo. Por exemplo, entre os anos de 1922 e 1923, era precária a situação da policia Militar, em Cuiabá. O policiamento andava de farda, mas descalços. Não só os policiais como os funcionários municipais passavam necessidades. E, o João Bento descobriu que na Intendência, o Neco Moreira guardava 80 mil reis. Como era bom de oratória, convocou o povo para um comício na Praça da República, em Cuiabá e rasgou o verbo sobre a informação da existência do dinheiro. Se havia dinheiro porque os policiais andavam descalços e os funcionários necessitados? Não tinha cabimento para ele. O governador quis reprimir, mas não conseguiu. O pau quebrou. A imprensa noticiou e o povo contribuiu.

Da Praça da República tomou o rumo da Rua 13 de Junho. Ao passar pela Rua XV de novembro, onde ficava o quartel da polícia militar, foi convidado por um oficial a adentrar o quartel a convite do presidente que se encontrava no local e gostaria de falar com ele. Não deu outra. Recebeu voz de prisão. Ficou tranquilo porque era capitão da Guarda Nacional, apenas ficou detido.

Lá fora, em frente ao quartel, o povo começou a gritar. Horas depois foi solto. Para Zelito Bouret, João Bento era um homem extraordinário, cuja amizade lhe deu muita satisfação e para o povo também.

Outro fato acontecido foi com o Agrícola Paes de Barros que escreveu um artigo atacando o Olegário de Barros, chefe de polícia, à época. Assim, o Olegário atacou o Agrícola. Sabendo da situação, Zelito correu atrás do Olegário e disse: “o artigo é meu, fui eu quem escreveu. Deixe o Agrícola em paz. Olegário olhou para Zelito e disse: “ a corda rebenta sempre do lado do mais fraco. Eu sei que o artigo é seu, mas, como delegado de polícia tinha que tomar uma atitude qualquer. Deu um abraço no Zelito e acabou a zanga”. No entanto, não pediu desculpas a Agrícola e nem se retratou. Coisas de hoje também. Agrícola Paes de Barros faleceu em 09 de maio de 1969.

Para Zelito Bouret, antigamente, “nós atacávamos dentro da ética. Para chamar o sujeito de canalha, tinha que ser canalha mesmo. Se chamasse de ladrão, tinha que provar. Hoje xinga-se até a mãe do cara e não acontece nada”.

Para Zelito Bouret, o jornalismo antigo era muito sadio. “Nós tínhamos liberdade de ação para pôr o povo a par dos acontecimentos. Nós não tínhamos o cerco da Lei da Imprensa”, e hoje? Hoje! Mudou um pouco mas, muitas denúncias não são publicadas, ignoradas pois, as matérias passam pelo crivo da ideologia dos proprietários das empresas de comunicação.

(*) NEILA BARRETO é jornalista, historiadora, membro da AML e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso.



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