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Fechada há 4 anos, igreja histórica ainda aguarda obra milionária

A expectativa era de que a igreja fosse reaberta em 2023, mas a previsão atual aponta para 2029

CHRISTINNY CAVALCANTE - Midia News
Fechada há 4 anos, igreja histórica ainda aguarda obra milionária A Paróquia Nossa Senhora do Rosário e São Benedito que sofreu ainda mais estragos durante os quatro anos em que ficou fechada - Yasmin Silva/MidiaNews

Pisos destruídos, infiltrações nas paredes e partes do teto comprometidas seguem expondo o estado de deterioração da Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, um dos mais antigos patrimônios históricos de Cuiabá. Fundado em 1730 e interditado há mais de quatro anos, o templo ainda aguarda recursos para ser restaurada. 

Nós não temos nenhuma segurança de quanto tempo vai durar o restauro

 

Um dos principais pontos turísticos da Capital e espaço tradicional de celebrações religiosas, a igreja, de arquitetura simples e característica do período colonial, foi interditada pela Defesa Civil Municipal em maio de 2022, devido aos problemas estruturais.

 

Na época, a expectativa era de que o templo fosse reaberto já no ano seguinte. No entanto, o prazo foi sucessivamente adiado e a previsão atual é de que a restauração seja concluída apenas em 2029, no fim desta década.

 

Em entrevista ao MidiaNews, o pároco Pedro Canísio Schoeder, que integra a Comissão de Reparo, afirmou que o processo está na fase final de articulação e que as obras devem começar em 2027, desde que sejam captados os recursos necessários.

nicialmente orçada em R$ 4,5 milhões, a obra agora tem um valor estimado superior a R$ 11 milhões.

 

“A meta que eu colocaria, se nós conseguirmos recursos já até o início do ano que vem, em máximo dois anos, nós concluamos essa obra da igreja. E aí vamos ter um cartão postal aqui, no Centro de Cuiabá dessa igreja, que vai compor conjuntamente com a nossa expectativa da praça do Largo do Rosário, que estão arrumando agora”, disse o religioso.

 

Riscos e improvisos

 

Ao longo de sua história, a igreja passou por intervenções que preservaram grande parte de sua estrutura externa original. O interior também recebeu reparos de conservação desde que o imóvel foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 1975. A última intervenção havia ocorrido em 2006.

 

Quando foi interditado, em 2022, o templo já apresentava graves problemas estruturais, como infiltrações, corrosão e desgaste de materiais.

 

MidiaNews

Telhado Igreja do Rosário

Antes de ser interditada, em 2022, a igreja já enfrentava problemas graves de infiltração no telhado

Uma reportagem realizada pelo MidiaNews na época constatou a extensão dos danos, incluindo pisos de madeira apodrecidos e goteiras espalhadas pelos salões da igreja.

 

Ao comentar a atuação da Defesa Civil, o padre relatou que não tinha conhecimento prévio da iniciativa que resultou na vistoria e, posteriormente, na interdição do imóvel.

 

“Então, sobre essa questão da iniciativa da Defesa Civil, eu não estava sabendo. Possivelmente tenha ido gente lá, feito uma notificação de que eles deveriam fazer um laudo sobre as condições que a igreja oferece. Porque na prática, eles vieram com esse argumento: ‘Nós vamos fazer um laudo aqui sobre se essa igreja pode continuar ou não pode continuar’”, contou o padre.

 

Uma nota emitida pela Defesa Civil à época, no entanto, informou que a vistoria havia sido realizada a pedido da própria administração da igreja.

 

O pároco contou que a interdição ocorreu de forma abrupta, durante a própria vistoria que identificou os riscos estruturais. Segundo ele, o espaço foi bloqueado em questão de minutos, impedindo a continuidade das celebrações.

 

“Então, só na primeira meia hora, eles já tinham colocado vários lacres aqui, onde não podia mais nem passar. E já imediatamente, a partir desse dia, já proibiram continuar usando a igreja aqui para atividades celebrativas”, relatou.

 

Apesar dos transtornos provocados pelo fechamento, o religioso admitiu ter sentido alívio com a interdição, diante dos riscos que a deterioração da estrutura representava para os frequentadores.

 

“Eu não estava ciente, não fui eu que tomei a iniciativa, mas aconteceu. E para mim, até certo ponto, foi um alívio, porque olhando hoje, esse grau de comprometimento, sobretudo do piso, oferecia risco de segurança para os fiéis que vinham aqui". 

 

Antes mesmo da interdição definitiva pela Defesa Civil, a deterioração do piso e as infiltrações já haviam provocado acidentes e situações inusitadas, que exigiram improvisos durante as celebrações religiosas.

 

Em um dos episódios mais graves, uma fiel pisou em uma tábua do assoalho comprometida por cupins, teve o pé afundado na estrutura e sofreu uma fratura no fêmur durante uma celebração lotada.

 

Em outra ocasião, a falta de manutenção dos aparelhos de ar-condicionado provocou um forte vazamento sobre o forro da igreja.

 

A goteira no corredor principal era tão intensa que foi necessário abrir um guarda-chuva dentro do templo para proteger uma noiva enquanto ela caminhava em direção ao altar.

 

Feridas abertas

Yasmin Silva/MidiaNews

Paróquia Nossa Senhora do Rosário e São Benedito

Com o avanço da deterioração, partes do piso de madeira cederam e expuseram a fundação do prédio

 

Durante os mais de quatro anos em que permaneceu fechada, a igreja sofreu uma deterioração ainda maior de sua estrutura, agravando os problemas que motivaram a interdição.

 

Várias ripas do piso cederam, abrindo buracos que deixam exposta a fundação de terra, pedras e tijolos do imóvel. Em diversos pontos, as tábuas de madeira não resistiram ao desgaste do tempo e ruíram completamente.

 

A deterioração também atingiu o teto, onde partes do forro de madeira permanecem penduradas, evidenciando o comprometimento da estrutura interna.

 

Nas paredes, os sinais de infiltração são evidentes. Manchas amareladas revelam os caminhos percorridos pela água, que escorreu e se acumulou ao longo dos anos.

 

Os pilares de sustentação também apresentam sinais de deterioração e foram ocultados por forros.

 

Caminho do restauro

 

A recuperação de um patrimônio histórico como a Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito exige cuidados que vão muito além de uma reforma convencional.

 

Por se tratar de um imóvel tombado pelo Iphan, o processo depende da elaboração de projetos técnicos especializados, com a participação de arquitetos e engenheiros, para a reestruturação das instalações elétricas e hidráulicas, dos pisos e do sistema de climatização.

 

Além disso, as intervenções no solo e na estrutura do templo exigem acompanhamento arqueológico, para preservar possíveis vestígios históricos encontrados durante a execução dos trabalhos.

 

Após a aprovação técnica dos projetos pelo órgão federal, no fim de 2024, o processo avançou para a etapa de captação de recursos e obtenção dos alvarás necessários à execução das obras junto ao poder municipal.

 

Mesmo com os projetos concluídos e as articulações com o Governo do Estado e a Assembleia Legislativa, as tentativas de captação de recursos em Mato Grosso foram afetadas pelo calendário eleitoral.

 

Sem garantia de financiamento estadual, a administração da igreja precisou buscar alternativas e passou a articular a obtenção de recursos em Brasília, por meio de mecanismos federais de incentivo à cultura.

 

“Durante esse período eleitoral, tudo ficou estagnado. O único movimento que fizemos foi dar entrada em Brasília através do Instituto IBASE, que faz a captação de recursos para a recuperação do patrimônio histórico com o apoio do IPHAN. Eles cadastraram nosso projeto junto ao Ministério da Cultura e com esse projeto nós estamos tentando fazer a captação de recursos pela Lei Rouanet”, detalhou o padre.

Yasmin Silva/MidiaNews

Padre Pedro Canísio Schoeder

O padre Pedro Canísio Schoeder, pároco da Igreja Nossa Senhora do Rosário

 

Segundo o sacerdote, o instituto responsável pela captação já identificou o interesse de uma grande empresa em patrocinar a restauração do templo.

 

No entanto, a dificuldade de interlocução com representantes dos ministérios durante o período eleitoral, prolongado pelo segundo turno da eleição presidencial, interrompeu temporariamente o avanço das negociações.

 

“Mas agora com o final das eleições o pessoal do instituto não tem interlocutores. Está tudo meio parado, mas temos a expectativa que a partir da semana que vem em diante nós consigamos retomar o pique de captar recursos em Brasília através da Lei Rouanet”, detalhou o pároco.

 

Em setembro, o Governo do Estado e a Prefeitura de Cuiabá iniciaram as obras de revitalização do Largo do Rosário, região também conhecida como Ilha da Banana.

 

O anúncio das intervenções provocou confusão entre os fiéis, que chegaram a acreditar que os trabalhos também contemplariam a restauração da igreja.

 

Diante da situação, a paróquia emitiu uma nota esclarecendo que a obra realizada pelo poder público está restrita ao espaço urbano do entorno, sem incluir a recuperação do templo.

 

Os reparos de conservação realizados em 2006 também contemplaram a parte sacra da igreja, composta por elementos de madeira. Por isso, a comunidade espera que, nesta nova intervenção, seja necessária apenas uma limpeza dessas estruturas.

 

No entanto, ainda será preciso realizar um laudo técnico para avaliar as condições de conservação. Caso seja identificada a necessidade de restauração desses elementos, a reabertura do templo poderá demorar ainda mais do que o previsto.

 

O pároco explicou que a complexidade das intervenções impede a definição de um prazo exato para a conclusão dos trabalhos.

 

“Nós não temos nenhuma segurança de quanto tempo vai durar o restauro. Por exemplo, para removermos o piso, fazer toda a limpeza embaixo e aprofundar um pouco para criar lá uma galeria para o ar-condicionado, e embaixo dessa galeria vamos colocar um gradil de concreto para impermeabilizar o piso por baixo". 

 

Padre Pedro também destacou que imprevistos podem surgir durante a execução do projeto, especialmente diante da possibilidade de serem encontrados vestígios históricos sob a estrutura da igreja.

 

Apesar das incertezas, ele mantém a expectativa de que a restauração seja concluída em até dois anos após o início das obras.

 

“Ao fazer essa remoção, nós vamos contratar um arquiteto, isso é uma questão da exigência do IPHAN, que vai estar atento, mediante qualquer coisa que aparece, que pode ter um significado.

 

Então, se aparecer alguma coisa, ele vai mandar parar a obra até que saia o laudo do que se trata e aí ver como é que vai continuar. Mas esperemos que não aconteça nada mais grave. Não tendo nada que vai exigir parar a obra, eu acho que em dois anos a gente consegue fazer todo o projeto”, avaliou o pároco.

 

Procurado pela reportagem, o Iphan informou apenas que o projeto de restauro submetido pela própria igreja está aprovado e válido até março de 2027, sendo passível de renovação. A autarquia destacou ainda que oferece suporte institucional à paróquia para auxiliar na captação de recursos financeiros.

 

Fé e resiliência

 

Desde a interdição da igreja, as celebrações religiosas foram transferidas para o salão paroquial, localizado nos fundos do terreno, garantindo a continuidade das missas e demais atividades da comunidade.

 

No entanto, o espaço adaptado não consegue reproduzir a atmosfera espiritual nem o sentimento de pertencimento proporcionado pelo templo histórico, que há quase três séculos faz parte da vida religiosa e cultural de Cuiabá.

 

Yasmin Silva/MidiaNews

Paróquia Nossa Senhora do Rosário e São Benedito

São Benetido, patrono dos pobres que simboliza a humildade, a dignidade humana, a igualdade e a superação do preconceito

“Olha, o ambiente aqui é de igreja, ainda mais por ser a casa de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. Isso tem um significado, e para os fiéis aqui isso é muito significativo. Então, lá [no salão] é uma maneira de fazer uma celebração que podia acontecer em qualquer outro lugar. Mas uma celebração aqui [na paróquia], se não for aqui, em outro lugar é diferente”, afirmou o padre Pedro Canísio.

 

A mudança também provocou resistência entre os frequentadores mais antigos, acostumados a participar das celebrações no interior da igreja.

 

“Muita gente vinha aqui na frente da igreja para participar da missa e, ao ver fechada, ia embora. Eles não queriam aceitar essa inovação que nós tivemos que fazer. Então, o impacto aqui foi muito grande”, completou o sacerdote.

 

O vínculo afetivo e religioso com a igreja também levou os fiéis a assumirem parte da responsabilidade pela recuperação do patrimônio.

 

Em uma corrente de solidariedade, a paróquia lançou uma rifa de um automóvel com a meta de arrecadar R$ 1 milhão até o dia 4 de abril, data que marca a memória do padroeiro.

 

Para a comunidade, a campanha representa uma oportunidade de contribuir diretamente para o início das obras e garantir a recuperação de um espaço que, ao longo de gerações, acolheu fiéis e preservou tradições religiosas.

 

 

Devoção e resistência

 

Erguida por mãos negras escravizadas na década de 1730, a Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito nasceu como um espaço de devoção e resistência durante o auge do ciclo do ouro em Mato Grosso.

 

Ao longo de quase três séculos, o templo se consolidou como um dos principais marcos da história e da identidade cuiabana, além de representar um símbolo da resistência cultural negra na Capital.

 

Com o passar dos anos, a igreja também passou a ser reconhecida como um espaço de memória, fé e ancestralidade, tendo desempenhado, durante décadas, um papel central na vida espiritual e social da comunidade afrodescendente cuiabana.

 

Essa ligação histórica remonta ao período colonial, quando o templo foi dedicado a Nossa Senhora do Rosário, considerada padroeira dos negros, e a São Benedito, santo negro que simboliza a humildade e o serviço.

 

A igreja é um dos pilares da religiosidade de Mato Grosso e está diretamente ligada a celebrações reconhecidas como patrimônio cultural imaterial.

 

Seu entorno abriga tradições como a Festa de São Benedito, marcada por missas, procissões e apresentações de siriri e cururu, além da tradicional Lavagem das Escadarias.

 

As manifestações mobilizam multidões, atravessam gerações e contribuem para preservar a memória afrodescendente e a identidade cultural de Cuiabá.

 

 




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