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Partidos políticos da representação ao negócio do poder


Partidos políticos da representação ao negócio do poder João Edisom Souza

Há algo profundamente equivocado na forma como os partidos políticos operam no Brasil contemporâneo. E o problema não é apenas de desempenho, é de essência.

Historicamente, um partido político nunca foi pensado como uma máquina de poder desprovida de princípios. Para Edmund Burke, tratava-se de uma associação de cidadãos unidos por ideias e comprometidos com o interesse público. Na leitura de Max Weber, os partidos são instrumentos fundamentais de organização da vontade política, responsáveis por dar racionalidade à disputa pelo poder.

Em síntese, deveriam ser pontes entre a sociedade e o Estado e não estar nos balcões de negócios.

Mas essa ponte foi, aos poucos, sendo substituída por uma estrutura com lógica empresarial.

O avanço do financiamento público de campanhas, embora tenha surgido com o objetivo legítimo de reduzir a influência do poder econômico privado, produziu um efeito colateral preocupante: transformou os partidos em gestores de grandes volumes de recursos. O controle dessas verbas passou a ser, em si, um ativo político. E onde há ativos, há disputa, cálculo e interesse.

Nesse ambiente, confirma-se a advertência de Robert Michels sobre a “lei de ferro das oligarquias”: poucos controlam muitos, e o objetivo deixa de ser representar para se tornar preservar o próprio poder. Dirigentes partidários assumem o papel de executivos; candidaturas tornam-se investimentos; e o eleitor, reduzido à condição de mercado consumidor.

O resultado é visível: partidos que já não se estruturam em torno de ideias, mas de estratégias. Programas são substituídos por narrativas; convicções dão lugar à conveniência; e a política, esvaziada de conteúdo, passa a operar sob a lógica do marketing.

É nesse ponto que a degradação se aprofunda. Em vez de qualificar o debate público, muitos atores políticos passaram a explorá-lo emocionalmente. A religião, que deveria ser fonte de valores éticos e reflexão espiritual, é instrumentalizada como ferramenta de mobilização. O medo, analisado por Thomas Hobbes como elemento estruturante da ordem política, é manipulado para gerar dependência e controle. E o ódio, como já advertia Theodor Adorno, transforma adversários em inimigos, corroendo as bases da convivência democrática.

A política, assim, deixa de ser o espaço do diálogo como defendia Hannah Arendt para se tornar um campo de disputa emocional, onde vencer importa mais do que convencer.

E talvez esse seja o ponto mais crítico: não se trata de uma crise de partidos isolados, mas de uma crise do próprio sistema de representação. Como alerta Giovanni Sartori, a democracia depende de partidos com identidade, coerência e responsabilidade. Sem isso, o que resta é uma estrutura vazia, facilmente capturada por interesses circunstanciais.

O Brasil, hoje, enfrenta exatamente esse risco. Partidos que deveriam formar lideranças e oferecer caminhos para o país passaram a operar como empresas políticas, orientadas por retorno, seja ele financeiro, eleitoral ou de poder.

Não é exagero afirmar: quando a política se transforma em negócio, a democracia se torna produto.

Reverter esse quadro exige mais do que reformas legais ou ajustes institucionais. Exige uma mudança de cultura política. É preciso resgatar o sentido original dos partidos: espaços de construção coletiva, guiados por ideias, responsabilidade e compromisso com o bem comum.

Sem isso, continuaremos assistindo à substituição da política pela estratégia, da verdade pela narrativa e do cidadão pelo consumidor eleitoral.

E uma democracia de consumidores jamais será uma democracia de cidadãos.

(*) JOÃO EDISOM DE SOUZA é Analista político e professor universitário.

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