Quando a idade avança e a memória falha, a comunicação precisa melhorar
Com o envelhecimento da população, saber conversar com idosos que enfrentam perdas cognitivas se torna uma habilidade essencial
Luzimar Collares A população brasileira está envelhecendo. E, com o aumento da expectativa de vida, cresce também o número de famílias que convivem com idosos enfrentando algum tipo de perda cognitiva.
Nem todas as pessoas que têm o privilégio da longevidade vão enfrentar essas limitações.
Mas é essencial entender que, para quem enfrenta essa situação, a comunicação deixa de ser apenas uma troca de palavras e passa a ser um instrumento de cuidado.
Segundo a psicóloga clínica Nilma Novais, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, algumas dificuldades podem surgir nessa fase da vida.
Entre elas estão: perda de memória, dificuldade de concentração, desorientação no tempo e no espaço, afasia (condição que compromete a capacidade de se comunicar adequadamente) e déficit nas funções executivas do cérebro.
E essas alterações interferem diretamente na comunicação.
O raciocínio se torna mais lento, as palavras parecem escapar da mente, nomes e lembranças desaparecem, mesmo quando a pessoa se esforça para recordá-los. Tarefas simples podem levar mais tempo e orientações, que antes eram facilmente compreendidas, passam a exigir mais paciência de quem está por perto.
O problema é que, muitas vezes, o ambiente não acompanha esse novo ritmo. Vivemos em uma cultura de pressa, de respostas rápidas e de pouca tolerância ao tempo do outro. E é justamente aí que a comunicação pode deixar a situação ainda mais complicada.
Quando um idoso passa a ouvir críticas, broncas ou frases que diminuem sua autoestima, ele pode começar a se calar. Experiente no atendimento a idosos, Nilma Novais conta que muitos se sentem desinteressantes, como se suas histórias já não importassem mais. Esse processo pode levar ao isolamento e até a quadros de depressão.
Por isso, ajustar a forma de se comunicar com o idoso não é apenas uma questão de educação. É uma questão de respeito. A psicóloga sugere algumas atitudes simples que fazem uma grande diferença:
- Mensagens claras, curtas e diretas ajudam na compreensão.
- Ter paciência para ouvir, entender a necessidade da pessoa e atender suas demandas.
- Manter contato visual, falar com calma e permitir que o idoso veja a boca de quem fala podem facilitar o entendimento, inclusive por meio da leitura labial. Gestos também ajudam a reforçar o que está sendo dito.
- Outro cuidado importante é reduzir os estímulos ao redor. Conversar com televisão ligada, barulho ou várias pessoas falando ao mesmo tempo pode tornar a comunicação ainda mais difícil.
- Também é essencial respeitar o ritmo do idoso. Atividades que antes eram rápidas podem levar mais tempo: entrar em um carro, levantar-se de uma cadeira, escrever ou simplesmente organizar um pensamento. A comunicação precisa acompanhar esse tempo.
E talvez o ponto mais importante seja o tom emocional da conversa. A psicóloga Nilma Novais alerta que certas frases devem ser evitadas. Comentários como “eu já te disse isso várias vezes”, “você já me contou/perguntou isso mil vezes”, “vai logo, tá demorando demais” ou “você só me dá trabalho” podem ferir profundamente quem já enfrenta limitações que não escolheu ter.
A repetição de perguntas, por exemplo, é comum em quadros de perda de memória. Nesses casos, a orientação é simples e desafiadora ao mesmo tempo: responder pela trigésima vez como se fosse a primeira.
Lembretes, anotações, fotos e rotinas organizadas também ajudam. Quando o idoso sabe o que acontece em determinados momentos do dia, ele se sente mais seguro, integrado e independente.
Mas há um aspecto que costuma passar despercebido. Quem cuida também precisa de cuidado. Por isso, familiares e cuidadores que convivem diariamente com desafios emocionais, físicos e psicológicos deve manter a própria saúde mental em dia, inclusive com terapia. Isso ajuda a lidar melhor com as demandas e a desenvolver mais paciência e empatia.
É importante ressaltar que comunicar-se bem com um idoso que enfrenta perdas cognitivas não significa falar mais alto ou repetir informações. Significa falar com mais humanidade. Porque quando a memória começa a falhar, a dignidade não pode falhar junto. E a forma como escolhemos nos comunicar diz muito sobre quem somos e, principalmente, sobre a sociedade que estamos construindo.








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