12 de Julho de 2024

CULTURA Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2022, 11:06 - A | A

PRATA DA CASA

Conheça escritora de MT que foi finalista do maior prêmio literário

Paty Wolff conta que não tinha expectativas de ganhar, mas que a temática de sua obra é importante

ENZO TRES - Midia News

escritora Paty

 A mato-grossense Patrícia Wolff

Considerado o mais importante do Brasil, o Prêmio Jabuti de literatura premia anualmente os autores nacionais de destaque. A mato-grossense Patrícia Wolff, de 33 anos, chegou à final do concurso de 2022 na categoria Contos com seu livro “Como Pássaros no Céu de Aruanda”, publicado em 2021.

 Paty, como é chamada, conta que seu interesse pelas artes existe desde criança. A mãe dela, na época, comprava lápis de cor como forma de incentivá-la a explorar a criatividade. Atualmente, Patrícia produz diversos trabalhos artísticos, como pinturas, esculturas e livros.

 Seu livro foi publicado com o auxílio do edital mato-grossense Estevão de Mendonça de Fomento à Literatura. Paty conta que sempre gostou de escrever, mas que nunca teve a pretensão de publicar.

 “Como Pássaros no Céu de Aruanda” aborda a escravidão e a saudade que as pessoas negras sentiam de suas terras natais. A obra, entretanto, também é para Patrícia uma tentativa de conhecer melhor suas raízes.

É uma questão social, uma tentativa antirracista de escurecer a minha história. A família da minha mãe, que é mais branca e vem do Sul, conhece toda a árvore genealógica, mas a do meu pai não conhece as raízes. Você vai puxando esse fio e vai vendo que é uma suposição desse passado escravocrata”, explica.

 Para a autora, o livro é um toque na ferida social da escravidão brasileira que nunca cicatrizou. Ela explica que os constantes episódios de racismo prejudicam a liberdade da pessoa negra e, muitas vezes, reduzem a crueldade histórica envolvida. Mestre em Geografia, Patrícia explica que sua formação contribuiu para um olhar mais crítico e também sensível sobre a história brasileira e os atuais sofrimentos humanos.

 Patrícia afirma que, para combater esse racismo estrutural, é necessário que um trabalho “de formiguinha” seja feito ainda por muitos anos, pois somente assim as mudanças necessárias para tornar a sociedade mais respeitosa e acolhedora serão conquistadas. Sob essa perspectiva, revela que deseja levar “Como Pássaros no Céu de Aruanda” para as escolas.

 Fred Gustavos

COMO PÁSSAROS NO CÉU DE ARUANDA

Patrícia Wolff explica que pretende levar "Como Pássaros no Céu de Aruanda" às escolas brasileiras

Eu sofri muito racismo quando estudava no Paraná. Era chamada de homem das cavernas por conta da minha aparência. Me lembro da quinta série, que tinha uma menina negra de pele escura, e o quanto ela era maltratada. Era um racismo terrível”.

 Sobre o Prêmio Jabuti, a autora conta que se inscreveu no concurso porque sempre foi muito participativa. Apesar de ter sido vencida por “A Vestida: Contos”, de Eliana Alves Cruz, Patrícia tem recordações muito alegres da oportunidade, pois, além de ter sido finalista no prêmio, escreveu a obra logo após se tornar mãe. “Como Pássaros no Céu de Aruanda” nasceu ao mesmo tempo em que a versão materna de Paty. Nas madrugadas de seu puerpério, ela escrevia no celular enquanto o bebê dormia em seu colo. Sua escrita era “intuitiva”, conforme ela descreve, sem pretensão de pertencer a algum gênero específico ou de, futuramente, receber premiações.

 “Às vezes a gente fala que passa um filme na cabeça, mas é por conta da trajetória que temos. O livro representa toda a trajetória de menina periférica, negra, da escola e da universidade pública. Sempre desse lugar onde não é fomentado o sonho de ser artista. Por isso é uma grande conquista”, comemora.

 Patrícia confirma que ter chegado até a etapa final do Prêmio Jabuti é motivador e a mostra que está no caminho certo, fazendo com que tenha mais vontade de escrever. Após participar, a escrita se tornou para ela uma forma de expressão indispensável.

 Ela conta que seus familiares são os maiores incentivadores de sua carreira como escritora, mas que esse incentivo não é apenas à escrita e sim a todas as formas de arte que ela produz. Uma das maiores motivações ao seu trabalho é a oportunidade de debater os assuntos propostos por ela nas suas produções.

 “Eu faço do meu trabalho um palco e decidi que ele daria essa luz sobre a vida negra e indígena, mas no sentindo de mostrar o quanto essas populações sofrem por simplesmente quererem viver. É muito forte. Infelizmente, ainda no século em que vivemos, ainda precisamos falar sobre racismo. São temas que ainda não superamos e não sei se vamos superar enquanto estivermos em vida, porque são muito profundos e é estrutural do nosso país”, reflete a autora. 

É uma questão social, uma tentativa antirracista de escurecer a minha história

Sobre seus sonhos futuros, Patrícia revela que pretende escrever outros livros, mas sempre trazendo para a escrita inspirações de sua vivência. Para isso, ela tem estudado cada vez mais sobre literatura para se envolver ainda mais com o mundo das histórias e trazer novidades.

 Um de seus sonhos é alcançar a divulgação nacional e internacional de suas produções, sempre conciliando as diversas possibilidades artísticas.

 A autora ressalta que não gosta de engessar sua arte com apenas uma linguagem ou estilo, pois tudo o que produz tem fluidez natural em sua mente e, muitas vezes, uma forma de produzir se apresenta mais facilmente do que outra.

 “Ninguém vai descobrir a gente se ficarmos no casulo, temos que botar para o mundo. A publicação não está no eixo sul e sudeste, onde eu diria que é um pouco mais fácil ser conhecida, por isso eu queria que ele alcançasse também o nacional. Estamos botando o livro para jogo”, conclui sonhadora.



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