23 de Julho de 2024

VARIEDADES Terça-feira, 19 de Setembro de 2023, 16:12 - A | A

IGUARIA

Pequi produzido por mulheres mato-grossenses vira drink em SP

A fruta empreendeu uma jornada de 1.623 km para desembarcar em um restaurante icônico de São Paulo, o Mocotó

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coquetel  de pequi

 

O clássico pequi mato-grossense, símbolo do Cerrado e da Amazônia, empreendeu uma jornada de 1.623 km para desembarcar em um restaurante icônico de São Paulo, o Mocotó, onde se tornou o ingrediente principal de um drink original e inusitado. Adquirido junto à Sumaúma Alimentos, esse fruto singular é beneficiado pela Associação de Mulheres da Agricultura Familiar do Portal da Amazônia (AMAFPA), trazendo um sabor doce e peculiar que não apenas desafia os paladares mais criativos, mas também apoia a agricultura familiar.

Direto de Terra Nova do Norte, a associação é apoiada pelo Programa REM MT com R$739.890,00, por meio do Subprograma Agricultura Familiar e de Povos e Comunidades Tradicionais (AFPCT). Formada apenas por mulheres, a associação trabalha com o Pequi Gigante da Amazônia, desde sua colheita, passando pelo beneficiamento até a sua comercialização.

Fruto habitual do Centro-Oeste e presente em muitos pratos regionais, o mixologista do Mocotó, Rafael Welbert, quis levar o sabor singular do pequi em uma receita inovadora para o Sudeste.

A ideia é valorizar um produto tão incrível como o pequi, de uma forma inusitada que é uma batida de cachaça branca, junto com outras frutas amarelas, como o maracujá e o abacaxi. O pequi ainda é pouco conhecido em São Paulo”, comenta Rafael.

Trabalhando há muito tempo com ingredientes brasileiros e cachaça, Rafael conta que a intenção é tentar valorizar ao máximo o ingrediente.

Estou usando o pequi por conta do seu sabor peculiar e tão brasileiro, um fruto que não se usa tanto na coquetelaria, já que é mais usado na cozinha. Então, pensei em utilizá-lo pela sua textura, pelo sabor e pela sua gordura. Assim o incorporei em uma batidinha que é um estilo de bebida mais cremosa, porém, sem usar leite condensado ou creme de leite ou qualquer tipo de emulsificante”, diz Rafael.

A experiência

Por conta do seu odor característico, muitas pessoas têm aversão ao pequi – sem ao menos experimentá-lo. Em um primeiro contato, Rafael confessa que alguns clientes ficam ressabiados. No entanto, a ideia é exatamente o oposto: quebrar preconceitos e popularizar a diversidade de sabores, cores e cheiros que o Cerrado e a Amazônia possuem.

Quando a gente oferece para o cliente um drink com pequi, normalmente, a reação é de desconfiança. Mas, quando o cliente experimenta, ele acaba baixando a guarda e gostando da batida. A gente lida com um pouco de preconceito, pois muita gente odeia o pequi. E do outro lado, muita gente ama. Parece a relação que muitos dos nossos clientes têm com o coentro também. Entendemos que como pouca gente conhece por aqui ou só está familiarizado com o uso em pratos salgados, estranha vê-lo em um coquetel”, comenta Rafael.
Incentivo à agricultura familiar e geração de renda de mulheres

A gastronomia e a coquetelaria permitem a experiência de viajar para outros lugares apenas pelo sabor. E estimular a prática de conhecer alimentos e produções de todo o Brasil é também apoiar o fortalecimento de pequenos produtores e suas famílias, além da preservação ambiental.

A presidente da AMAPFA, Geysca Karoline Kaminski, cita as dificuldades que a associação enfrenta para produzir. “É uma produção muito grande, tem produtor que tem 3 mil pés de pequi plantados. Então, falta infraestrutura, apoio do governo para melhorar e caminhar, pro produtor ter aquele retorno adequado”, reflete.

Conexões

Após contato com a pesquisadora Fernanda Hattnher, da Fruto Agro Inteligência, o chef do Mocotó, Rodrigo Oliveira quis conhecer o pequi mato-grossense. Ele fez testes para alguns pratos e adorou o produto, que por conta do seu potencial, acabou se tornando um drink para o cardápio da casa.

Ter feito essa conexão foi extremamente importante para a valorização do trabalho das mulheres de Terra Nova, conta Geysca.

É gratificante, porque nunca imaginei que um chef de cozinha tão renomado está usando um produto da agricultura familiar, que vem daqui do norte de Mato Grosso. É uma agricultura familiar que preza pelo reflorestamento, recuperar nascentes, o ciclo pastoril, produtores que se importam realmente com a questão do ambiente. Pra mim e pra todas as meninas é um orgulho saber que hoje a gente consegue mostrar nosso trabalho, apesar de pequenas ainda, tantas lutas que temos aqui e mostrar que está dando certo e vamos ser reconhecidas”, explica.

Apoio do REM MT

Ela cita ainda como o apoio do Programa REM MT tem ajudado na valorização da cadeia de valor do pequi. “Eu vejo que tem suma importância pra nossa comunidade, para valorizar a cadeia do pequi. Depois do projeto, a comunidade vai ter mais credibilidade com a associação, vão ver que é um fruto para toda a comunidade, não é uma coisa isolada”, diz Geysca.

Rafael também reconhece a importância de colaborar com a agricultura familiar, além da preservação ambiental. “Eu acredito que seja fundamental. Isso é algo que o chef Rodrigo e nós no restaurante tentamos fazer como um todo, tentamos sempre buscar fornecedores para a cozinha e para o bar que sejam da agricultura familiar ou da produção orgânica. Essa valorização do produto e do produtor é essencial para termos uma cadeia do alimento muito mais justa e melhor para a gente e para o meio ambiente”, pontua.

O engenheiro ambiental e ponto focal no Subprograma Agricultura Familiar e de Povos e Comunidades Tradicionais (AFPCT) do REM MT, Leonardo Vivaldini, comemora a conquista das mulheres da associação, especialmente levando em consideração a dificuldade de produção e comercialização que elas enfrentam na região.

"Dentro de uma cadeia tão emblemática como a do pequi, ainda existem diversos gargalos a serem superados para poder comercializar. Primeiro produzir com pouca orientação técnica e assistência, depois coletar num curto período de tempo e processar isso,e , por fim, encontrar mercados que pagam de forma mais justa. É um trabalho que envolve não só a restauração de áreas degradadas, mas também criatividade do ponto de vista da manutenção da floresta e sequestro de carbono”, cita Leonardo.



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