19 de Julho de 2024

OPINIÃO Sexta-feira, 24 de Novembro de 2023, 11:30 - A | A

Saudade da Cuiabá de Karl von den Steinen

Neila boa

 Neila Barreto

Cuiabá continua bela, formosa. Calorosa e hospitaleira. O rio homônimo continua banhando as suas orlas, assim como desde o seu nascimento, como a vila Real do Bom Jesus de Cuiabá e, depois cidade. O verde está sumindo.

O rio Cuiabá continua sendo um elemento principal de paisagem e turismo, representa vida para a cidade. Vivemos em contato com ele, vivemos dele, somos íntimos dele. A nossa culinária está ligada a ele. O nosso linguajar está ligado nele. O nosso peixe advém dele. As hortas estão em seu entorno, a cerâmica, as redes, a cana e a rapadura e, hoje uma vida cultural intensa nas suas margens, por meio de diversos estabelecimentos comerciais. A feira municipal emoldura a orla e o povo vai atrás. O museu do rio está lá, feio, mas está lá, sem função. As calçadas estão caindo. Boa parte de doentes psicossociais precisam de ajuda e assistência. Estão lá como zumbis. O coreto sumiu e a bandinha também. Quem cuida?

Porém, não é mais a mesma conforme descreveu Karl Von den Steinen: (...) uma linda cidade balneária alemã, numa tarde de domingo, quando toca a banda militar. Imaginou encontrar-se num vilarejo da Turíngia ao constatar “a liberdade patriarcal do bom gado”, ao verificar a sem cerimônia com que porcos, cabritos e, outros animais andavam pelas ruas, hoje não mais existentes. A sujeira toma conta da cidade. Os esgotos escorrem pelas ruas. Uma grande quantidade de doentes dependentes pelo becos e vielas. A cidade está doente e a violência ronda as vias.

Lá pelas bandas do Porto, em um local tranquilo, em suas margens encontramos um espaço antes ocupado pelo bairro Terceiro, antes espaços de famílias, que deu lugar a espaços comerciais, sendo um deles o Shopping popular, mais conhecido pela população cuiabana por “Paraguaizinho”, uma área gostosa, porém, hoje perigosa. Virou área de medo., de insegurança.

O Shopping Popular, um lugar agradável, climatizado, cheio de pequenos empresários e empresárias. Por lá circulam jovens, adultos, velhos, mulheres, crianças, grávidas, portadores de necessidades especiais, porém, hoje se transformou em um lugar inseguro e sem nenhuma proteção aos visitantes, turistas, no quesito segurança. Virou terra de ninguém. Território de execuções. Como resolver? Quais autoridades são responsáveis?

Festas e danças como Siriri, Cururu, São Gonçalo, as lavações de São João, a festa de São Pedro, padroeiro dos pescadores, a honra a São Benedito e ao Senhor Divino para os cuiabanos não são tradições, são vivências. Comer peixe, principalmente os mais nobres como o pacu assado, a mojica feita do pintado com a mandioca, a pacupeva cozida acompanhada do arroz sem sal, o bagre ensopado e a piraputanga recheada com farofa de banana da terra, não são pratos típicos da culinária cuiabana, são pratos do dia-a-dia, oriundos das famílias ribeirinhas. São comidas que invadiram os lares cuiabanos e se tornaram costumes e culinárias tradicionais regional e nacional. E é por lá que o povo vai. Acabaram de colocar o Senhor Bom Jesus de Cuiabá, nas proximidades da Orla, mas ele não dá conta de resolver o problema da segurança pública. Por lá sozinho.

Em 19 de dezembro de 2022 dentro desse mesmo Shopping Popular, no Porto, em Cuiabá, foi executado o vendedor de cigarros e ervas, Naldo do Tereré, que possuía um box no local. Para os cuiabanos, dezembro é mês do Natal, de festas, de confraternização. No entanto, em Cuiabá, nesse local, está virando sinônimo de violência, de transtornos, de medos, de inseguranças e de matança de pais de famílias.

No último 24 de novembro de 2023, clientes desse Shopping vivenciaram momentos de terror: lojistas atormentados por tiros e violência trancaram as suas bancas, procuram arrastar para dentro clientes que estavam sendo atendidos ao seu alcance. Dentro daqueles cubículos pessoas deitadas ao chão para se protegeram, graças a benevolências desses comerciantes, mas muitos não tiveram essa sorte. Ficaram, a esmo, nos corredores. E crianças e velhos, atônitos não sabiam como proteger.

Está virando rotina nesse local execuções de pessoas. Os responsáveis pelo Shopping necessitam com urgência identificar esses pontos de estrangulamento que proporcionam esse tipo de violência. Uma senhora, proprietária de uma loja exclamou “Esse tipo de violência aqui está virando rotina”. Se está virando rotina, como proteger a população no local? Quem é o responsável por essa reengenharia de segurança contra a violência?

O Estado? O Município? A Associação do Shopping Popular? Idosos não conseguem fazer essa segurança. Senhorzinho fantasiado de segurança que correm do primeiro tiro não conseguem resolver essa situação. Precisa de uma providência mais ostensiva. A população precisa de segurança pública ou privada. O Shopping Popular é uma área, também, do turismo de Cuiabá. Lá recebe migrantes e imigrantes. O que fazer? Quem toma conta?

Lá no Porto, na orla às margens do rio Cuiabá continua sendo o local de cultuar os santos como Nossa Senhora, Santa Rita, São Benedito, Senhor Divino, São Pedro, São Gonçalo, São João, Santo Antônio, Senhor Bom Jesus de Cuiabá, festejá-los, lavá-los hoje, nas águas do rio Cuiabá ou, como outrora, em suas fontes, poços, córregos, tanques, chafarizes e bicas não são folclores, mas costumes que marcam as relações profundas dos córregos, rios, das suas águas com os moradores, num encontro de vida com as suas águas doces potáveis sagradas e profanas e, não de mortes.

Necessário um trabalho conjunto entre todos. O Porto, berço do comércio de Cuiabá não pode transformar em local de disputas e matança. Cuiabá não merece. É preciso que as autoridades acordem.

“ ... Vem vamos embora/ Que esperar não é saber/ Quem sabe faz a hora/ Não espera acontecer”.

(*) NEILA BARRETO é jornalista, historiadora, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso e membro da AML



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