15 de Julho de 2024

OPINIÃO Sexta-feira, 02 de Setembro de 2022, 13:37 - A | A

O Cruzeiro do Pary

Sempre que posso, percorro caminhos da minha infância e juventude. Confesso que em meio a tanta evolução urbana de Cuiabá, tenho dificuldades em localizar caminhos que povoam o meu imaginário. É assim com um caminho que eu fazia no vaivém do Pary até Cuiabá.

No caminho da minha infância o marco era uma árvore que, hoje seria pelos fundos do Círculo Militar. Gostaria de localizar uma velha cruz. Não consegui. Até que tentei.

Nos registros históricos conta o escritor Francisco Ferreira Mendes da existência desse “Cruzeiro do Pary”, em localidade de Cuiabá “ a beira de caminho que bifurca em direções diversas, demandando à margem do rio Cuiabá fronteira à “barra do pari” e de outros portos do caudal, um pequeno cruzeiro chatado entre pedras e sombreados por algumas arvores do velho charravascal das adjacências do primitivo campo de aviação ao poente da urbe, assinala esquecido jazigo sesquicentenário, de velho preto forro estrangulado por mãos criminosas, ansiosas de se apoderarem de suposta riqueza, que, diziam, trazia encolhida em uma sacola escondida no seio. “Três Vinténs”, como era alcunhado, ali tombou e ficou sepultado para sempre. Sua alma voando para o além, deixou, todavia, na terra cuiabana memória supersticiosa nos milagres que favoreciam a fé com que a antiga gente do bairro agreste da cidade, invocava sua lembrança”.

O local referido por Ferreira Mendes, hoje, localiza-se nos fundos do Círculo Militar, na Avenida Miguel Sutil que, também foi o primeiro campo de aviação de Cuiabá e, tem como fundo diversos bairros, entre eles, o Santa Rosa, Santa Amália, o Canachuê e a própria Vila Militar. O fato ocorrido remonta a 30 de maio de 1834, nos dias em que seguiram os acontecimentos, com a matança dos bicudos, apelido dado pelo povo aos portugueses adotivos, lenda esta imortalizada dos milagres da alma do velho escravo, ali enterrado, cujo nome a história não fixou e, revivida pelo memorialista Francisco das Chagas Rocha, em suas andanças.

O Pary é a lembrança da minha infância e da minha juventude. Por lá convivi com diversos personagens e diversas relíquias. Não tinha consciência da sua importância para a história e a memória da cidade de Cuiabá. Nunca imaginei que pisava terras do maior educador do Estado de Mato Grosso, o Padre Ernesto Camillo Barreto. Só adulta descobri a sua importância para o Estado de Mato Grosso e, também as histórias que compõe esse local. Dentre tantas, está o Cruzeiro do Pari.

A vida do Pe Ernesto Camillo Barreto, baiano de nascimento, é marcada não somente pelos importantes trabalhos realizados no interior da província, mas, sobretudo, pela dedicação e seriedade com que abraçou a causa educacional, no Estado de Mato Grosso.

Em Cuiabá, como morada, o Pe Ernesto escolheu a Barra do Pary, o qual se mantém inalterado ao longo dos anos. O vilarejo foi um entre os muitos pontos ocupados por pescadores no surgimento de Cuiabá. No lugar a referência de todos continua sendo a “Casa Grande” onde morou o Pe. Ernesto Camillo Barreto e, local onde funcionou o Colégio São João Batista no século XIX, destruída pela enchente de 1974. Hoje o tempo levou a casa, no local sem preservação, apenas vestígios. Não foi por falta de tentar recuperar, mas, forças estranhas impediram a preservação.

Ainda, hoje, nos tempos em que vivemos, quando a estiagem ameaça prolongar-se com prejuízos para a lavoura, não raro se vêm ao entardecer, bandos peregrinos em procissão, conduzindo potes, latas e toda a espécie de vasilhames doméstico, caminho do “Pari”, indo “ implorar à alma daquele que descansa sob o cruzeiro, patrocínio junto aos alcanos poderosos, a fim de miacrar a inclemência astral, derramando sobre a terra canicularmente seca, as chuvas benéficas ansiosamente desejadas, fato este registrado por Ferreira Mendes, em Cuiabá, 14.9.1966.” Continuando, Ferreira Mendes acrescenta que, por vezes, essa súplica era atendida como obra divina: “ E vezes, após o ofertório da crença, como por encanto, nos horizontes plumbere da cidade, clarões avermelhando as fimbras do firmamento, ao rimbambar de trovões, não davam tempos aos do cortejo de se agasalharem nos lares, a que se recolhiam molhados, mas satisfeitos na fantasia da crença supersticiosa”.

Para Ferreira Mendes, “ As lendas geralmente são histórias miraculosas do sobrenatural. Elas vivem na sinceridade e simpleza do coração do povo. Escondidas sob as aparências de verdades, que surpreendem, elas definem um sentido, que escapa à sensibilidade humana. Se as lendas lembram o fabuloso, a tradição encerra alguma coisa de real, que se transmite oralmente de geração a geração”.

O cruzeiro do caminho do “Pari” ainda existe (1966), caso algum estudioso resolva por ali volver as terras e procurar pelos vestígios, talvez escondidos sobre algum escombro, um lixo ou calçada, ou asfalto. “ Ali almas caritativas na simplicidade da fé e da crença se confundem no sentimentalismo de preces evocativas, irmanadas numa mesma inspiração, a recordação do passado da terra. Da velha gente colhi o que aí fica. A imaginação fertilíssima do povo, tem raízes profundas na tradição que lhes anima o ser. Os melhores poemas nascem no seio da natureza virgem e vivem no sorriso dos humildes, sempre anternecedores nas suas narrativas”, assim registrou Mendes, em Lendas e Tradições Cuiabanas, publicada no jornal O Estado de Mato Grosso, em 14 de setembro de 1966.

A Barra do Pary fica localizada na zona oeste da cidade de Cuiabá, à margem esquerda do rio Cuiabá, em frente da margem direita da foz do rio Pary, um dos tributários do rio Cuiabá, cuja constituição como Bairro seu deu pela Lei 3.723 de 23 de dezembro de 1997. Limita se com os Bairros Santa Rosa, e deu origem aos seguintes bairros: Vila Militar, Village Flamboyant, Jardim Santa Amália, Jardim Araçá, Residencial Canachuê e Vila Santa Isabel.

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* Neila Barreto é jornalista e historiadora, membro da AML, atual presidente do IHGMT e escreve para o site "A imprensa de cuiaba"



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Jocenaide Rossetto 02/09/2022

Lindo texto, que remexe as memórias históricas da região. Do Pari eu só conhecia a lenda do Minhocão. Como é bom os jornais e outros escritos que nos permitem resolver o passado, a terra, os cruzeiros e as gentes que o fizeram, simbolizam, acreditam. São marcas de vida, de morte, símbolos de passagens... Francisco Chagas Rocha e Neila Barreto nos surpreendem sempre com memórias de assas leves que ficaram nas dobras do tempo. Gratidão pela sensibilidade que nos brindam neste texto e em tantos outros que desenham o passado.

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