23 de Julho de 2024

OPINIÃO Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2024, 11:19 - A | A

Kamayurá e Minatá-Karaiá em estranhezas

Anna maria Ribieor

 Anna Maria R. Costa

Loyuá trouxe à tona Flavio Colin (1930-2002). O carioca ocupou uma boa parte do nosso dia. A arte do desenhista, quadrinista, ilustrador e argumentista de quadrinhos, estampada em uma camiseta Chico Rei, provocou um segmento sinuoso no traçado original daquela manhã. Afinal coexistia com meus interesses, encetados em 1979 durante as aulas de Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, onde cursei História e, logo depois, rumei ao ‘País dos Nambikwara’. Início de uma virada em minha existência, a descortinar regras não manifestamente declaradas, sempre orientadas para a coletividade Nambikwara, impregnadas de valores ancestrais. Tácitas. Um mundo longínquo da obediência ocidental.

Humor, terror, suspense, policial, mistério, erotismo, história, folclore são alguns dos temas escritos e ilustrados por Colin que adentram em terras brasileiras, ainda tão desconhecidas. ‘Hotel do terror’, ‘Terror no inferno verde’, ‘Caraíba’, ‘O santo’, ‘O curupira’, ‘Sou a onça’, ‘O boi das aspas de ouro’, ‘Fawcett’, ‘Estórias Gerais’ são algumas de suas contribuições ao conhecimento do Brasil.

A obra de Colin, um dos pilares das HQs, ampliou seu espaço: do papel para o tecido. A coleção de camisetas ‘Flavio Colin’ oferece estamparias selecionadas de suas histórias em quadrinhos. ‘Caminho da Zoada’, uma delas, está entre as minhas preferências. Trata-se de uma imagem que uniu o desenho de apenas um quadrinho, o recurso da onomatopeia – Zuããã, Zuããã – e a legenda: ‘Curiosos para saber o que era, caminharam no rumo de onde vinha a zuada’.

A imagem de autoria de Colin, reproduzida da camiseta, apresenta quatro homens indígenas de costas, em meio à floresta densa, com corte de cabelo e adereços (brincos e colares) e, ainda que cobertos pela vegetação, seus pescoços e ombros ostentavam robustez. No conjunto, a cena conduz o atento observador à Terra Indígena Parque do Xingu, Mato Grosso.

Por água abaixo foi meu roteiro para aquela terça-feira. Completamente afastada da rotina traçada, embrenhei-me na mata estampada por Colin. De onde vinha aquela zuada – ‘Zuããã, Zuããã’? Pesquisa daqui, pesquisa de lá, busco o livro ‘Xingu: os índios, seus mitos’ (1976), de Orlando e Cláudio Villas Boas. Com poucas pistas, a elucidação que procurava estava naquelas páginas escritas pelos irmãos sertanistas.

Trata-se de um acontecimento ocorrido entre dois povos indígenas: Kamayurá e Minatá-Karaiá. Convertida da oralidade para a escrita por Orlando e Cláudio Villas Boas, o fato rememorou uma expedição Kamayurá ao logo do rio Kuluene, um dos afluentes do Xingu e pelas matas da região. Após dias de expedição, munidos de armas e do saber venatório – conhecimento relativo à caça e seus universos – não encontraram pegadas de animais ou quaisquer outros vestígios. Um barulho jamais conhecido desviou o propósito expedicionário, levando os homens até à aldeia do povo Minatá-Karaiá. Sem serem vistos, os Kamaiurá, homens de grande estatura, observaram aquelas criaturas desconhecidas. De dentes afiados. Com rosto coberto com pintura na parte inferior. Mas, o que deixou os quatro homens mais impressionados foi um buraco no topo de suas cabeças por onde saía o som que os atraiu. Como se não bastasse, a estranheza chegou ao extremo quando viram cachos de coco nascendo de suas axilas. Os Minatá-Karaiá, ainda sem perceber a presença Kamaiurá, retiraram cocos das axilas, bateram fortemente contra suas cabeças para parti-los e, em seguida, saborearam os frutos.

A tranquila degustação dos cocos foi interrompida. Kamaiurá e Minatá-Karaiá frente a frente. Gritos. Corre-corre. Os Minatá-Karaiá atearam fogo na vegetação. Os Kamaiurá bateram em retirada. A fumaça atrás deles indicava a proximidade dos inimigos. Depois de dias e noites em fuga, perceberam a fumaça dissipar-se, enunciando estarem distanciando-se dos domínios inimigos. Em exaustão, chegaram salvos à aldeia.

A chegada inesperada de Loyuá, na companhia da arte de Colin, deixou minha terça-feira bem mais interessante daquela que havia planejado. Trouxe-me a arte de um dos grandes cartunistas brasileiros. Me fez revisitar os escritos dos Villas Boas. Aportei no Xingu. Às suas praias de areias alvinhas e quentinhas a agasalhar os pés. À outras sensações e maneiras subjetivas de ver e entender o mundo.

Anna Maria Ribeiro Costa é doutora em História, etnógrafa e filatelista e semanalmente escreve a coluna Terra Brasilis no Circuito Mato Grosso.



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