23 de Julho de 2024

OPINIÃO Sexta-feira, 24 de Novembro de 2023, 11:17 - A | A

Comprar: Qualidade ou Quantidade

art ricardo carvalho

 Ricardo Carvalho

A nossa sociedade do “mais, mais, mais” vai se transformar na sociedade do "melhor, melhor, melhor". O grande choque, ainda não interiorizado completamente" da quarentena é a realização de “afinal passo bem sem isto", "afinal não preciso daquilo"

Depois de 6, 7, 8 semanas de quarentena, desempregadas, ou com um salário reduzido, as pessoas vão apenas ater-se apenas ao básico e fundamental. E quando escolherem gastar dinheiro em algo mais que fundamental, vão escolher cuidadosamente a quem entregar a sua grana e vão exigir um patamar de qualidade que ainda, também, não foi interiorizado.

A tradicional divisão de segmentos sócio econômicos vai ser, se não repensada, pelo menos, redistribuída.

Vamos ter uma classe mais abastada, que de uma forma genérica mantem os mesmos hábitos de consumo.

Mas vamos ter as classes C, D e E, a percentagem mais significativa para o segmento de varejo, fazendo escolhas muito mais críticas sobre qualidade, isto é, apropriado para o objetivo a satisfazer E é importante que quem vai sobreviver, se atente rapidamente nessa translação do hábito de consumo. O exercício de precificação, a avaliação cuidadosa da margem de contribuição que decorre, consequente, da avaliação dos custos, fixos e variáveis, e despesas das empresas será o grande divisor de águas.

Daí decorre que as empresas necessitam reavaliar o seu modelo operacional e fazer escolhas ao mesmo tempo delicadas e difíceis de como operar pós retomada, já que o modelo operacional é o grande influenciador do custo e despesa.

Com o advento do distanciamento social e da proximidade eletrônica, irá haver um redirecionamento grande para os negócios eletrônicos, com impacto natural que essas escolhas tipicamente têm a nível de taxa de emprego (ou desemprego, neste caso).

quantidade

 

Vai haver uma redução substancial de necessidade de pessoal, no futuro, e quem mais vai sofrer é a mão de obra não qualificada, que constitui a grande maioria da classe D e E. A única maneira de reverter este quadro é através do influxo de incentivos ao consumo, por exemplo, redução dos tributos e das taxas de juro.

Mas Paulo Guedes, Ministro da Economia, falou que "o Estado está quebrado e a retomada vai depender, substancialmente, do investimento do setor privado" e o setor privado está pouco disponível para ser a sustentação da retomada porque ainda não se livrou da falência, e não está nem aí para atitudes filantrópicas "Se ficar o bicho pega e se correr o bicho come" é um aforismo popular bem apropriado para o momento que vivemos. Só temos uma solução, não existe outra, e ela e bem exemplificada nesta história que encontrei na internet:

Em uma cidade, os habitantes, endividados, estão vivendo às custas de crédito. Por sorte chega um gringo e entra no único hotel. O gringo saca uma nota de R$ 100,00, põe no balcão e pede para ver um quarto.

Enquanto o gringo vê o quarto, o gerente do hotel sai correndo com a nota de R$ 100,00 e vai até o açougue pagar suas dívidas com o açougueiro. O açougueiro pega a nota e vai até um criador de suínos a quem deve e paga tudo. O criador, por sua vez, pega também a nota e corre ao veterinário para liquidar sua dívida. O veterinário, com a nota de R$ 100,00 em mãos, vai até à zona pagar o que devia a uma prostituta (em tempos de crise essa classe também trabalha a crédito). A prostituta sai com o dinheiro em direção ao hotel, lugar onde levava seus clientes e que ultimamente não havia pago pelas acomodações e paga a conta de R$ 100,00. Nesse momento o gringo chega novamente ao balcão, pede sua nota de R$ 100,00 de volta, agradece, diz não ser o que 34 esperava e sai do hotel e da cidade.

Ninguém ganhou um vintém, porém agora todos saldaram suas dívidas e começam a ver o futuro com confiança!

Moral da história: “Quando o dinheiro circula, não há crise”. Aliás, como nos mostrou a história, esse é o significado de crise, falta de confiança.

Só falta agora saber quem é o "gringo" dessa nossa história, se o Estado ou se os empresários. Ou pior ainda, o FMI.

E esperar que ninguém cobre propina para pagar as suas dívidas....

Atualização de Novembro 2023

O artigo acima foi escrito em Junho de 2020. As coisa mudaram desde então. Claro que o dinheiro tem que continuar a circular.

Mas o dilema qualidade/valor não aterou. As pessoas continuam, como sempre à procura da melhor qualidade e o menor preço. Mas atenção: não é a melhor qualidade absoluta, é a melhor qualidade relativa. Qualidade relativa? Mas o que é isso? Qualidade relativamente ao preço. Por isso que vemos o advento e a explosão de iniciativas como Shopee e Shein, Wish e afins.

Ora vejamos. É como ir ao shopping popular comprar uma bolsa Louis Vuiton, “original” por R$200,00.

Claro que uma bolsa original LV não custa R$200, mas a do shopping popular atende bem a minha necessidade de qualidade pelo preço que custa. Nada contra, e garantidamente nunca iremos ver queixas no Procon por causa da bolsa comprada no shopping popular.

Então se aplica a regra de Pareto: atende 80% das minhas necessidades de qualidade por 20% do custo. É isso que é a qualidade relativa.

Ninguem vai no engano que o couro é, na verdade, plástico, que a estampa veio ligeiramente esborratada e que as peças de metal descascaram ao final de uma ano. Até ai, eu já disfrutei de toda a qualidade que podia desejar pelo preço que eu paguei.

E aí? É um produto de qualidade ou não? Claro que é: atende a todas as minhas necessidades de status e de dispêndio. ´

Acredito, também, que nenhuma primeira dama fosse no camelô comprar uma bolsa LV. Daí se depreende que a avaliação de qualidade é uma avaliação extremamente pessoal, Aquilo que para mim tem qualidade pode não satisfazer o meu vizinho do lado.

Por isso que é tão importante conhecer o seu cliente, o que ele deseja e aspira, quanto dinheiro ele tem no bolso para gastar. E tal como a Wish, a Shein e a Shopee fizeram, eles definiram o cliente e vão atrás dele com todas as armas possiveis do arsenal do Marketing.

E enquanto você compra a qualidade desejada, eles vendem a quantidade desejada, a preços muito acessiveis.

Se isso não é uma formula de sucesso, não sei o que será….

Ricardo Carvalho é consultor credenciado do SEBRAE, e sócio fundador e CEO da Sucesso.Global

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