21 de Julho de 2024

OPINIÃO Sábado, 14 de Outubro de 2023, 07:49 - A | A

Centro de Letras comemorou passamento do Pe. Ernesto

Neila boa

 Neila Barreto

O Pe. Ernesto Camillo Barreto, baiano de nascimento e cuiabano por adoção nasceu e morreu no período dos oitocentos. Foi professor, jornalista, político, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso – IHGMT e da Academia Mato-grossense de Letras - AML e patrono da imprensa em Mato Grosso.

Por volta de 1928, o Centro Matto-Grossense de Letras, atual Academia Mato-grossense de Letras, comemorou a 26 de abril, o 32º aniversário do passamento do Protonotário Ernesto Camillo Barreto, patrono de uma das cadeiras da mesma agremiação, inaugurando em sua sede o retrato daquele sacerdote, oferta do sócio Ovídio Corrêa. Atualmente, essa cadeira, antes 5, hoje 14, é ocupada por Nilza Queiroz Freire.

Foi uma festa modesta, mas significativa como expressão da nossa cultura, tendo o desembargador José de Mesquita, ocupante da Cadeira 19 e presidente do Centro, à época, proferido uma encantadora oração sobre a personalidade do homenageado, de cuja intelectualidade disse com felicidade e justiça.

Ao terminar o seu discurso, o presidente do Centro declarou inaugurado o retrato que foi descerrado pelas gentis meninas Maria Amália de Mesquita e Maria Mamoré de Mello, sob os aplausos dos assistentes e o esvoaçar de perfumosas pétalas de rosas.

Como representante do magistério falou em seguida o professor Isac Póvoas, diretor do Liceu Cuiabano, recordando com viva emoção o papel daquele educador, a quem o ensino público de Matto Grosso muito deve e, necessita reparar.

Faz hoje trinta e dois anos que nesta mesma cidade que lhe foi teatro das glorias e trabalhos, desaparecia, na sombra do mistério tumular, o vulto egrégio do Protonotário Ernesto Camillo Barreto, a quem nesta hora, o “Centro Mato-Grossense de Letras” vem, pela segunda vez, pleitear a sua veneração e o seu carinho. Finava-se aos 68 anos de idade àquele cidadão, que tamanho brilho soube dar à terra que elegeu por sua, nela vivendo a maior parte da sua existência, consagrando a Mato Grosso mais de oito lustros fecundos dos 13 em que se lhe contou o viver. Era um nome dos mais representativos da nossa história que assim se obumbrava no eclipse total da morte, para apenas subsistir a memória, como astro através das nebulosidades do futuro, no espirito das gerações porvindouras. Era o lutador das belas campanhas jornalísticas, memorabilizadas no lance inesquecível e inesquecido de 26 de maio de 1881, em que, si de um lado avulta, serena e límpida, a coragem cívica do sacerdote, de outro se liquida, em vexatório incidente, o prestigio do Presidente Alencastro, a quem esse episódio - da prisão do jornalista – por si só delata de violento e tirânico no Tribunal da posteridade”.

Era o hábil e autorizado político, robusto esteio do seu partido, homem público dos mais acatados, deputado estadual mais de uma vez, deputado federal e sempre zeloso do bem público mais do que seu particular, conselheiro provecto a cuja palavra amiga iam recorrer os companheiros, mesmo já depois de velho e retirado à doce e bucólica sombra da sua chácara do Pary, na capital mato-grossense.

Era o emérito educador, a quem os contemporâneos, pela voz autorizada do Bispo D. José, conferiram o mestrado do ensino no seu tempo, que pela competência, que lhe não faltava, quer pela dedicação de que sobejas provas exibiu durante o seu longo tirocínio pelo magistério público e privado, já no Seminário – instituto a que tanto deve a nossa terra ao intelectual de mais de uma geração, já no seu Colégio, cujos bancos viram passar muitos conterrâneos ilustres que mais tarde vieram destacar-se nos fastos políticos e intelectuais mato-grossenses.

Da sua tendência acentuada para a vida intensa e agitada dos combates ardorosos pela causa pública, fala, com expressiva eloquência, a circunstância de haver trocado do silêncio do claustro a que antes se consagrara, pelo tumulto da vida secular, no qual, posto não se desligasse do voto religioso, podia, mais à larga, do que sob o burel austero de franciscano, dar expansão aos seus impulsos de polemista e lutador das nobres causas. Ei-lo transformado de frei Ernesto de São Joaquim no padre Ernesto Camillo Barreto – sob cujo nome passaria à história mato-grossense.

Nobre exemplo a testificar a grandeza do seu espirito, a lealdade da sua conduta, que, dentro do ideal que se traçara, sem sacrifício dos compromissos assumidos perante a Igreja, soube, a uma, servir, ao Deus, a que se consagrara, nos arroubos de moço, e à Pátria, a que muito amava, conservando-se fiel até ao fim aos dois grandes cultos da Religião e do Civismo.
Comemorando o anno Centenário do nascimento do ilustre filho da gloriosa Bahia, da terra lendária que deu ao Brasil os maiores vultos do Império e o máximo vulto da Republica – Ruy, o imortal – o “Centro Matto-Grossense de Letras”, no dia do aniversário do transito do Padre Ernesto honra-se de inaugurar, na sua moderníssima sala de trabalhos, o retrato do dedicado servidor de Mato-Grosso.

A homenagem de hoje completa e integra a outra que, a 21 de abril de 1923 – cinco anos atrás, prestamos ao ilustre sacerdote, em brilhante sessão na qual se fez ouvir, enaltecendo a sua memória, em formosa conferencia, o nosso distinto confrade Ovídio de Paula Corrêa, ocupante da cadeira n. 5, e a quem devemos a fineza da oferta da bela fotografia do seu patrono.

Eis porque o “Centro” se sente bem neste dia e nesta hora, ao render à lembrança subjetiva do grande varão o seu culto desinteressado e nobilitante.

O Pe. Ernesto recebe hoje, dos Cuiabanos de uma geração que já não é a sua, o pleito de justiça que talvez, no seu tempo lhe houvesse sido negado. Seja este exemplo um conforto aos que mourejam nas mesmas lutas e trilham os mesmos ásperos caminhos, ouriçados de acúleos e de cardos agressivos.... Na qualidade de Presidente do Centro Matto-Grossense de Letras declaro inaugurado o retrato do patrono da cadeira n. 5, Protonotário apostólico Ernesto Camillo Barreto. ”Ata de Sessão extraordinária de inauguração do retrato do P. Ernesto Camillo Barreto, patrono da cadeira n. 5, aos 26 dias do mês de março de 1928, na sede social do “Centro Matto-Grossense de Letras”, com a presença do representante do Arcebispo D. Aquino, numerosas pessoas e Famílias, autoridades e membros do “Centro” e de outras sociedades literárias e representantes da imprensa, procedeu-se a cerimonia da inauguração do retrato do Protonotário Apostólico Pe. Ernesto Camillo Barreto, patrono da cadeira n. 5, oferecido pelo ocupante da mesma, Major Ovídio Corrêa, ” noticiou o Jornal O Matto Grosso, em 1928.

(*) NEILA BARRETO é jornalista, historiadora, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso e membro da AML.



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