23 de Julho de 2024

OPINIÃO Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2022, 11:20 - A | A

Cacimba do Soldado

neila barreto

              Neila Barreto

O centro da cidade de Cuiabá era abastecido pelos Chafarizes do Rosário, Prainha, Mandioca e Mundéu. O Tanque do Baú construído no governo do Presidente Albino de Carvalho, em local hoje aterrado para dar lugar à construção da Avenida Rubens de Mendonça, mais conhecida como avenida do CPA, o Tanque dos Lázaros, a Bica da Prainha. Dentre eles havia, também, a Cacimba do Soldado.

A Cacimba do Soldado era uma Fonte de água natural localizada à rua do Campo (atual Rua Barão de Melgaço), na Praça Santa Rita (atual Praça José Rachid Jaudy). Foi diante dessa antiga cacimba que Antônio Luís Patrício da Silva Manso idealizou e fundou o primeiro Jardim Botânico de Cuiabá em 1823.

Cirurgião-mor, botânico, político (Santos/SP, 1812 – Campinas/SP, 18/01/1848). Botânico de renome, foi deputado Geral (1834/37), e passou à história com a alcunha de “Tigre de Cuiabá”, por sua liderança e participação na “Rusga”, revolução havida em 30 de maio de 1834, que pretendia desvencilhar-se do mando lusitano. Patrício Manso era o cirurgião-mor da província e em sua casa, localizada onde é atualmente a Rua Antônio João, no centro antigo de Cuiabá, funcionava a Sociedade dos Zelosos da Independência, da qual era presidente, conforme descreve o portal site de mato grosso.

A Cacimba do Soldado, nativa no terreno da chácara pertencente a senhora Amélia Vinagre, tia da professora Dunga Rodrigues, na antiga Praça Santa Rita e atual Praça Rachid Jaudy era uma fonte natural que formava um lago na Rua Barão de Melgaço, antiga rua do Campo, em frente à chácara do senhor Alexandre Ferreira Mendes, cujo local foi projetado para ser construído um chafariz no governo do presidente Cardoso Júnior, o que não chegou a ser construído, em 1872. Era, à época, também, uma alternativa de abastecimento de água doce potável para Cuiabá. Também foi um local de luxo e privativo para lavar o “São João”, quando das suas festas juninas. Suas águas jorram soterradas em direção à Praça Ypiranga, centro da capital.

A Cacimba do Soldado, também serviu para definir o arruamento da cidade de Cuiabá, quando a referência nos diz: “a partir do Beco Largo, prolongado à rua Comandante Costa até a Praça Santa Rita, que foi o local do primeiro Jardim Botânico em 1826”, atual Praça Rachid Jaudy. A praça é em homenagem ao Sr José Rachid Jaudy morador de grande destaque comercial na região na época sendo homenageado pelo centenário das famílias sírio libanesas que aqui se instalaram.

A professora Dunga Rodrigues informa que tantos nos chafarizes como em outros lugares de água, como poços e Algibes, sempre havia confusão. Por exemplo: (...) ali no Chafariz do Mundéu também se reuniam os escravos e a plebe de Cuiabá, sobraçando latas; negros zucas com potes de barro debaixo dos braços e rodilhas na cabeça, aparando ditérios e chufas dos comparsas, o líquido com que abasteciam as vivendas dos senhores. Ali se viam negras descalças, de saias vistosas, com trepa-moleques de chita colorida na cabeça, curibocas com gaforinas de meses, molecotes seminus e sujos, com vasilhames, agitando, cantarolando, quando não jogando “cinquinho” na área lateral, dando ao local uma nota colorida, característica de cidade colonial. (...) algazarrante confusão de risos, algaravia e vaias, e não raro pontilhada de lutas, em que lapeana entrava em ação, tingindo de sangue o cenário bizarro(...).

Lembramos que além da Cacimba do Soldado, no “Plano” da Vila do Cuiabá, de 1777 já havia a indicação sete fontes contornando a vila: a do “Arnesto”, a de Maria Corrêa, a do Mundéu, a “junto de Feliciana Gomes”, a “junto a Manuel da Silva”, a da Mandioca e a “detrás da igreja”. A do “Arnesto” mais ou menos onde hoje está o Morro da Luz, a de Maria Corrêa seria a da (no sentido de rua da margem esquerda do córrego) Prainha, a do Mundéu seria na parte leste do atual terminal “Bispo”, as duas “junto” - de Feliciana e Manuel - e a da Mandioca estavam as três no circuito da atual praça do Conde de Azambuja e a “detrás da igreja”, ou da Matriz era na atual Isaac Póvoas, fronteira à atual praça Rachid Jaudy (e no século XIX e XX passou a ser a “Cacimba do Soldado”.

Hoje todas essas nascentes estão soterradas para darem espaços ao crescimento desordenado da cidade. No caso da Cacimba do Soldado, ainda existe a possibilidade de ali ser colocado um “Chafariz”, quando da sua reforma. Ouvi dizer que a dona Márcia Pinheiro é apaixonada por aquele espaço e sonha com a sua revitalização. O que é preciso ser feita com a maior urgência possível, até porque ali está presente um Centro de Atendimento ao Turista – CAT, edificado na gestão Wilson Santos, com projeto arquitetônico da arquiteta Adriana Bussiki. Rezemos para que isso aconteça em breve.

No local, a prefeitura municipal de Cuiabá, necessita, também, recuperar a história. O CAT recebeu o nome de “Ezequiel Roberto Sobrinho”, ex secretário de estado de turismo de Mato Grosso, no governo Dante de Oliveira e, um ser humano de primeira grandeza. Estudioso da área de turismo, onde era doutor. Filiado ao PTB-MT, morto em acidente aéreo em setembro de 2001, na região de Cáceres, quando se deslocava para participar dos festejos da abertura do 22º Festival Internacional de Pesca.

Além disso, o local foi equipado com fotografias e documentos do período das “Diretas Já”, cuidadosamente, separados pela historiadora Neila Barreto, mostrando a importância do governador Dante de Oliveira, nesse período. Com a depredação, a família recolheu todas as peças históricas, uma vez que o abandono motivou essa situação. No local, ainda resta, a “Viola de Cocho “erguida pelo ex-secretário municipal de turismo – Marcus Fabricio, uma vez que todos os equipamentos de atendimento aos turistas ali colocados, por ocasião da “Copa do Mundo” foram delapidados. O local se encontra totalmente depredados por dependentes e usuários químicos que vivem ao redor da Praça.

(*) NEILA BARRETO é Jornalista. Mestre em História. Membro da AML , atual presidente do IHGMT e escreve as sexta-feiras para o "A Imprensa de Cuiabá"



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