20 de Julho de 2024

OPINIÃO Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2022, 09:13 - A | A

100 Anos da Semana de Arte Moderna em Mato Grosso

suelmes fernandes

 Suelme Fernandes

Nessa semana, comemoramos os 100 anos da Semana de Arte Moderna no Brasil, referência do surgimento do movimento estético denominado pelos Estudos Literários como modernismo.

Pouco sabemos das repercussões desse movimento em Mato Grosso, para alguns críticos literários, ele aconteceu de maneira tardia, por resistência intelectual, conservadora e eclesiástica de Dom Aquino Correia, Presidente do Estado e do seu meio irmão também escritor, Desembargador José Barnabé de Mesquita.

Ambos eram os respectivos presidentes e fundadores do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso em 1919 e do Centro mato-grossense de Letras em 1921 que virou a Academia Mato-grossense de Letras.
Ambos resistiram veementemente as inovações literárias da Semana de Arte Moderna reafirmando o romantismo de gosto parnasiano.

Como verificou em suas obras os críticos de literatura, Hilda Gomes Dutra Magalhães no livro Literatura e Poder em Mato Grosso e Eduardo Mahon no seu recém-lançado A literatura contemporânea em Mato Grosso.

Segundo os autores, o apego a escolástica, as métricas advindas de um poder político eclesiástico conservador propostas pelos ilustres mato-grossenses estavam na contramão e descompasso com as mudanças culturais da republica insurgente abafando ou retardando as influências do modernismo brasileiro no Pantanal.

Em função dessa resistência, os ventos atlânticos da Semana de Arte Moderna chegaram tempos depois em Mato Grosso, tendo como marcos cronológicos: Os escritos do advogado Lobivar Matos a partir de 1935; O lançamento da Revista Pindorama de 1939 – de curta duração e mais tarde, entre 1940/1950, com Gervásio Pereira Leite, Rubens de Mendonça, Silva Freire e Wlademir Dias Pino.

No entanto, o livro de Hilda Machado, Laurinda Santos Lobo- Mecenas, artistas e outros marginais em Santa Teresa-RJ, revela a biografia de uma ilustre mato-grossense, ainda desconhecida entre nós que contribuiu significativamente para esse movimento cultural brasileiro.

Laurinda nasceu em Cuiabá em 4 de maio de 1878, filha de Thiago José Mangine e Leonor Murtinho Guimarães, órfã de pai teria sido criada por Francisco Murtinho, irmão do afamado Joaquim Murtinho, mato-grossense ilustre que foi Ministro da Fazenda no Governo Campos Sales, entre 1898-1902.

Em 1894, aos 16 anos Laurinda, muda-se para o Rio de Janeiro para estudar, indo morar na casa do tio.

Com a convivência nas rodas da elite carioca patrocinadas pelo poderoso Joaquim Murtinho e suas idas e vindas para França, Laurinda aos poucos virou um ícone da hight Society carioca.

Após a morte do tio milionário em 1911 que não deixou filhos, Laurinda herda todo seu patrimônio: Os direitos da famosa Empresa Erva Mate Laranjeiras do sul de Mato Grosso, o Palecete dos Murtinhos, as ações da Ferro-Carril entre outros imóveis.

Há quem diga que Laurinda tinha um íntimo e misterioso relacionamento com Joaquim Murtinho que beirava o incesto.

Em 1916, Santos Lobo será reconhecida pelas ruas cariocas como uma das mais importantes influenciadoras da cultura e da política da época, realizando festas suntuosas no seu Palacete, financiando artistas irreverentes e atuando como mecenas.

Ficou afamada como Marechala da Elegância ou simplesmente como Madame Santos Lobo.

No seu suntuoso palacete, no boêmio Bairro de Santa Tereza, recebia em seu salão parisiense pessoas influentes da República Velha, entre políticos artistas vanguardistas da Academia de Belas Artes e gente da moda.

Pela tradição narrativa inaugural e mítica paulistana da origem do modernismo brasileiro, o Salão de Madame Santos Lobo, foi considerado apenas um “centro de mundanismo aliterado e parnasianista oficial” ou foi taxado de ser um movimento da fase chamada pré-modernista.

Hilda Machado, em seu livro, rechaça esses rótulos e coloca a cuiabana Laurinda Santos Lobo como uma das protagonistas do movimento cultural modernista brasileiro, pois na sua casa, apesar da inspiração francesa, tinha uma nascente brasilidade típica do modernismo no seu repertório cultural.

O salão de Madame Santos Lobo foi frequentado por importantes intelectuais do chamado modernismo brasileiro: João do Rio, Graça Aranha, Tarsila do Amaral, Álvaro Moreira, Villa-Lobos, Eugênia Moreira, Isadora Duncan, Félix Pacheco e Margarida Lopes de Almeida.

A marechala veio a óbito em 1946, aos 68 anos e o seu palacete foi transformado anos mais tarde em um Centro Cultural chamado Parque das Ruínas em 1979.

Apesar de ter vivido a infância e adolescência em Cuiabá e ter retornado inúmeras vezes à capital e ao Pantanal, existem pouquíssimas informações sobre sua passagem na sua terra natal.

Laurinda foi uma mulher a frente do seu tempo que soube abrigar em seu Salão artistas marginais e transgressores que revolucionaram as artes e a cultura brasileira nesse período.

Apesar desses contextos supracitados, pouco sabemos sobre as repercussões do modernismo em Mato Grosso, além do trivial.

Demandando para os historiadores do futuro novas interrogações e estudos a luz da efeméride dos 100 anos da Semana de Arte Moderna no Brasil e em Mato Grosso.

Suelme Fernandes é mestre em História pela UFMT e membro do IHGMT.

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