21 de Julho de 2024

CULTURA Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2024, 11:06 - A | A

NO CENTRO HISTÓRICO

Consultório em que Ivens Scaff atendia população até de graça é o retrato da cuiabania

Médico infectologista e poeta, Ivens Cuiabano Scaff, morreu em decorrência de um câncer no fígado nesta semana, deixando um legado de generosidade e humanidade, como lembram os amigos

JOLISMAR BRUNO - HNT

consultorio ivens scaff

 

O consultório em que o médico infectologista, escritor, poeta, professor e membro ocupante da sétima cadeira da Academia Mato-grossense de Letras (AML), Ivens Cuiabano Scaff, atendia a população, em muitos casos, até de graça, está localizado na região central de Cuiabá e ainda mantém as mesmas características de quando foi construído.

O imóvel, que está localizado na rua Marechal Floriano Peixoto, nas proximidades da Praça da Boa Morte, é tão cuiabano como o escritor, que morreu nesta quarta-feira (21), em decorrência de um câncer. Sua partida deixou um vazio na área e da infectologia mato-grossense e, sobretudo, na literatura. 

A reportagem do HNT esteve no antigo consultório de Ivens Scaff, que fica próximo à igreja de Nossa Senhora da Boa Morte e Glória, no Centro.

O local mantém as mesmas características do casario cuiabano da região central, inclusive, a fachada tem seu nome e registro profissional. Atualmente, o prédio está fechado. Contudo, o imóvel está bastante preservado.  

Jolismar Bruno/HNT

Consultório Ivens Scaff

 

Assim como a 'poesia' inspirada pelo imóvel cuiabano em que exercia seu ofício, Inves fez do talento literário poesia para aqueles que consumiam suas obras. Ele deu início à escrita no gênero infanto-juvenil, sempre valorizando a cidade em que nasceu, já que muitas das obras de Scaff reproduziam as vivências e elementos da Capital. 

Reprodução/Redes sociais

Ivens Scaff

 

"O rio Cuiabá, a culinária cuiabana, as cachoeiras de Chapada [dos Guimarães], as aves do Pantanal, nossos peixes. Todo escritor carrega isso dentro de si. É uma essência que temos desde que nascemos quando amamos o lugar em que vivemos", destacou a grande amiga de Ivens, Yasmim Nadaf, ou "menina", como Ivens a chamava e ela fez questão de mencionar para a reportagem.

"Mas ele escrevia do universal para o regional. A essência é regional, mas o tema é universal", completou.

A fala de Yasmim remete à meneira que Ivens tratava temas como solidariedade, amizade, temas universais, mas sempre no contexto mato-grossense, em específico, o cuiabano. E amar o lugar onde nasceu era notório em Ivens, tanto que ele carrega "cuiabano" em seu nome. 

Ivens Scaff ainda foi precursor nos estudos sobre o Vírus da Imonudeficiência Humana (HIV) em Mato Grosso. Na década de 1980, o Brasil viveu uma "explosão" nos casos, quando o medo e o preconceito dominavam a população em razão da doença ainda desconhecida. Mas Ivens foi um dos primeiros infectologistas a estudar o vírus e implantar o tratamento no Estado. E, apesar de ser formado em uma profissão considerada "nobre", a medicina, o jornalista e também membro da AML, Lorenzo Falcão, relatou que Ivens não era de "luxo" e mantinha uma vida humilde mesmo sendo de família rica tradicional.

"Ele me atendeu, atendeu minha esposa, minha filha e meu filho. Sempre com o mesmo humor. Elé é um médico que teve essa vocação em ajudar as pessoas. E o Ivens era um cara simples, não tinha carro do ano e nem era rico. Podia ter algumas propriedades, mas nunca acumulou bens. Ele se enriquecia mais com o humanitarismo. Ele ajudou, tratou e curou muita gente ", relatou Lorenzo Falcão.

Reprodução/Redes sociais

Ivens Scaff

 

Cabe destacar que, ainda nos dias de hoje, há muito preconceito com as pessoas portadoras do HIV. A doença não é mais um "bicho de sete cabeças" e os estudos avançaram juntamente com os tratamentos.

Ter o diagnóstico da doença não é mais um setença de morte atualmente. Fazendo o tratamento adequeado, é possível viver bem e com saúde. 

Além do HIV, Ivens também foi um os primeiros a estudar o coronavírus, na maior pandemia sanitária do mundo, iniciada no fim de 2019. Com o desejo e o anseio de ajudar as pessoas, principalmente os mais necessitados sem condições financeiras, Ivens contraiu o coronavírus e ficou dias internado.

Ele recebeu alta no dia 18 de fevereiro de 2023 e comemorou a recuperação. 

O diferencial de Ivens era a humanidade que tinha com as pessoas. Ele atendia os pacientes até mesmo de graça quando não tinham dinheiro para pagar a consulta. "Dedicou uma vida inteira para acolher pessoas, sobrinhos, amigos", declarou o vice-presidente da AML, o advogado Flávio Ferreira. Declarado imortal, Ivens Scaff ocupava a sétima cadeira na AML. 

 

 LEGADO

Ivens Scaff deixou um legado de amor ao próximo. Em Cuiabá, ele atuou na ajuda de muitas pessoas e isso fez de Ivens uma figura marcante de Cuiabá, que merece inúmeras homenagens e reconhecimento. 

Na memória cuiabana, Ivens sempre será lembrando pela humanidade e bondade. "Sei que ele está por aí. É uma pessoa que marcou pela generosidade, que ele é uma referência", destacou Flávio Ferreira, ao ser questionado sobre como irá lembrar do amigo que partiu. 

Já Lorenzo Falcão vai se lembrar "do mesmo jeito" que Ivens era, uma pessoa muito bem humorada e generosa. "Sempre disposto a conversar e uma pessoa que enriqueceu muito a minha vida". 

Ivens Cuiabano Scaff foi sepultado na sexta-feira (23), no cemitério do Porto, em Cuiabá. 



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